WASHINGTON, EUA – Há quatro anos, Rebecca Wood teve de escolher entre sua saúde e a de sua filha. Um de seus dentes havia trincado na mesma época em que a filha precisava ir à fonoaudióloga. Wood só tinha dinheiro para pagar um dos tratamentos e optou pela filha.

Wood piorou, e sua mandíbula infeccionou. Quando finalmente foi ao médico, precisou arrancar todos os dentes. Como não conseguia custear a anestesia geral, fez o procedimento somente com injeção local. "Eu estava acordada durante toda a operação, chorando", conta. Foram seis horas.

Ela tinha um plano de saúde. Mas, nos EUA, isso não garante o tratamento. O convênio não cobre tudo, e o paciente na maior parte das vezes tem que pagar parte dos custos. Foi isso que faliu Wood, depois que sua filha nasceu prematura –ao levá-la a oito médicos diferentes, a família gastou todas as suas economias. "Nosso bolso secou."

A superpotência, ademais, não tem um sistema público universal, como o SUS. Sem dinheiro, não há saúde. "Fiz tudo o que esperavam de mim", diz Wood. Cursou a faculdade, casou e pagou o convênio. Mas hoje, aos 40 anos, ela tem dificuldade para falar, comer e engolir a saliva. Não pode mais tocar trompete, que tanto lhe dava prazer. Tudo isso porque não podia arcar com os R$ 5.000 de seu tratamento.

A precariedade do sistema de saúde americano, em que histórias como a de Wood se repetem diariamente, é um dos pontos centrais das eleições presidenciais deste ano.

O tema pode decidir que candidato representará o Partido Democrata na luta contra Donald Trump. Pesquisas sugerem que o sistema de saúde é a prioridade da maioria dos eleitores democratas.

Bernie Sanders tem a proposta mais radical e acabou forçando os demais candidatos a se posicionar. Ele propõe um sistema público para todos os americanos e quer eliminar os planos privados. Elizabeth Warren segue a mesma linha, mas sugere um período de transição. Já Pete Buttigieg, Joe Biden e Michael Bloomberg querem um sistema misto –o governo teria seu plano de saúde, mas não cortaria os privados, deixando a decisão para os cidadãos.

O governo de Barack Obama (2009-2017) também foi marcado por discussões sobre saúde. Ele introduziu o chamado Obamacare que, entre outras medidas, obrigava todos os americanos a ter um plano de saúde, mesmo privado. Em 2018, 8,5% dos americanos ainda não tinham convênio.

Os custos para quem não tem plano de saúde são hoje exorbitantes. O governo estima que quebrar uma perna leva uma pessoa a gastar o equivalente a R$ 30 mil. Passar três dias internado em um hospital custa R$ 120 mil. Lutar contra um câncer exige centenas de milhares de dólares.

Com o crescente pânico em torno do coronavírus, um homem em Miami foi ao hospital averiguar se tinha a doença. Era uma gripe. Com a boa notícia veio a conta: R$ 14 mil.

Mesmo quem tem plano de saúde não está seguro. Convênios exigem que os clientes gastem um valor mínimo antes de o serviço começar a funcionar, a chamada franquia.

O valor varia de plano para plano, com uma média de R$ 7.000 ao ano. Depois disso, o plano também exige que o cliente pague uma porcentagem de cada tratamento, que vai de 10% a 40%, o co-seguro.

Foi a mistura entre franquia e co-seguro que faliu Wood. Nesse cenário, o que acontece é que americanos decidem todos os dias se querem ou não buscar tratamento médico.

Segundo uma pesquisa do instituto Gallup, 25% da população deixou de se tratar em 2018 devido aos custos. O levantamento mostra, ademais, que metade dos americanos teme ir à falência no caso de um dia ter uma doença grave e precisar ir ao médico.

Darla Markley, 53, é prova de que o temor não é infundado. Em 2009, ela acordou com metade do corpo paralisado. Descobriu uma doença muscular rara, e o médico sugeriu uma série de exames. Markley pediu a autorização do convênio, que aceitou custear.

Mas, quando a conta de R$ 150 mil chegou, o plano de saúde não quis pagar. Por lei, mesmo que o convênio se comprometa a pagar um tratamento, a empresa pode mudar de ideia. O paciente, no entanto, não tem tal mordomia.

Sem ter como pagar a conta –ela tampouco pode trabalhar–, Markley decretou falência e perdeu a casa em que vivia com o marido. "Em um dia, levaram tudo o que tinha construído durante toda a minha vida", diz. "Se eu soubesse, não teria feito os exames."

Para economizar, Markley não compra o remédio para alergia a vespas, de R$ 1.200. O convênio não cobre, e ela torce para não ser aferroada. "Tenho vergonha de admitir que fui à falência", diz ela, que vende quitutes para pagar as contas. "Mas alguém tem que levantar a voz, para que as coisas finalmente mudem por aqui."

Trisha Fullmer, 37, também teve de se expor para conseguir pagar as contas médicas. Seu filho foi diagnosticado com câncer. O convênio pagou quase todo o tratamento.

Ainda assim, a família teve que lidar com um recibo de mais de R$ 50 mil, devido aos custos que não foram cobertos. Fullmer organizou uma campanha na internet, pedindo doações para pagar o tratamento do filho. Com sorte, recebeu os R$ 50 mil que devia.

Esse tipo de saída tem se tornado típica nos EUA. Um terço das campanhas de arrecadação feitas por meio do GoFundMe –um site de vaquinhas– tem por objetivo pagar contas de saúde. O site hospeda 250 mil campanhas desse tipo por ano. Somadas, as ações levantam R$ 2,7 bilhões.

"É muito delicado, mas usei o site para contar a nossa história. Para que outros pais soubessem que não estão sozinhos. Que alguém passou pelo mesmo", diz Fuller.

Wood hoje trabalha na organização sem fins lucrativos Health-Care NOW. Ela pressiona legisladores para que aprovem uma lei em trâmite que cria um sistema de saúde público. "Até então, as pessoas tratavam essa ideia como um delírio esquerdista, mas está acontecendo", diz Stephanie Nakajima, colega de Wood. "Ainda temos, no entanto, um longo caminho pela frente."

"No começo, achei que tinha merecido o que havia acontecido comigo", diz sobre sua tragédia. "Pensei que fosse o meu destino. Que, para meu bebê prematuro sobreviver, eu precisava passar por isso. Foi só depois que eu entendi que o sistema tinha falhado comigo. Agora, quero justiça."