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Publicado em: 16 de julho de 2021

Dismorfia corporal: o distúrbio da imagem se agravou na pandemia

A dismorfia corporal é uma condição que afeta jovens adultos e pode ser combatida

Imagem: MarinaZg/iStock

As doenças psicológicas estão cada vez mais em alta entre as novas gerações. O aumento da influência das redes sociais junto ao acesso precoce das crianças a esta exposição causaram, ao longo do tempo, problemas de autoestima em inúmeros pré-adolescentes. Tal problema desencadeou o aumento de doenças psicológicas também em adolescentes, inclusive o grande número de casos de dismorfia corporal.

Durante a pandemia, ainda mais devido ao excesso de tempo dedicado à Internet, essa doença está em uma crescente e não dá indícios de queda. Ela vem afetando jovens adultos que buscam entrar na vida acadêmica e profissional e estão sem a estabilidade mental necessária para tal.

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O que é dismorfia corporal?

Também conhecida como dismorfobia, transtorno dismórfico corporal (TDC) ou síndrome da distorção da imagem, essa condição afeta a relação pessoal do indivíduo com o espelho.

Dessa forma, quando a pessoa é portadora dessa doença, ela tende a exagerar os defeitos em seu próprio corpo, preocupando-se demais com questões específicas que podem ou não existir na realidade. Desde pequenos detalhes até mesmo pontos inexistentes, a tendência é sempre enxergar o problema muito pior do que ele realmente é.

O psiquiatra Táki Cordás, um dos organizadores do livro “Transtorno dismórfico corporal — A mente que mente”, descreve a doença como: “Quem convive com o TDC apresenta preocupação exagerada com algum defeito imaginário em sua aparência física”.

Nos dias atuais, as disfunções mentais são constantemente colocadas em pauta, principalmente quando relacionadas a novos avanços da tecnologia. Mas o TDC só foi reconhecido como doença pela Associação Americana de Psiquiatria em 1980, quando entrou para a terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM.

Contudo, há relatos do psiquiatra italiano Enrico Morselli, de1886, que, ao se caracterizarem como TDC, provam que o medo exacerbado de ter algum defeito é muito mais antigo do que as tecnologias atuais nos fazem acreditar.

É importante ressaltar que a doença afeta homens e mulheres igualmente, na faixa dos 18 aos 30 anos. Isso mostra uma tendência entre os jovens adultos que cresceram sob grande influência das redes sociais e sofreram com a superexposição em sua fase mais vulnerável: a pré-adolescência, antes mesmo de os perigos serem colocados em questão.

Como você se enxerga no espelho?

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A dismorfia corporal leva à não aceitação da própria imagem, fazendo o indivíduo buscar um padrão impossível de alcançar. (Imagem: Prostock-Studio/iStock)

Apesar de parecer normal se olhar no espelho e não gostar de algumas características especificas, os indivíduos que sofrem de dismorfia corporal levam essa preocupação a um grau alarmante.

As consequências vão além da relação individual e acabam prejudicando a autoestima em um nível que afeta drasticamente o trabalho e a vida social. Isso os impede de sair de casa e de conviver tranquilamente em sociedade.

Além dos problemas externos, as consequências do TDC também envolvem o desenvolvimento de outras doenças psicológicas. Por exemplo, enfermidades que atacam em sua maioria mulheres e as fazem se ver sempre acima do peso, nunca estando magras o suficiente, como a anorexia e a bulimia.

Já nos homens, é mais comum o desenvolvimento da vigorexia, que leva a pessoa a ficar horas na academia, nunca se achando “forte o suficiente”, por exemplo. Para eles, há sempre a “necessidade” de um corpo dito como perfeito pela sociedade.

Percebe-se o padrão de descontentamento com o corpo nas ramificações da doença. Em casos extremos, pode-se desenvolver até mesmo uma depressão que pode levar ao suicídio.

O transtorno dismórfico corporal na pandemia

Desde o início da quarentena, a vida do mundo se resumiu a telas de computador e de celular. Essa situação unida à solidão diária e à “perfeição” imposta pelas redes sociais, causou um aumento significativo nas doenças psicossociais e e mentais em todos os continentes.

Mas a relação das redes sociais com a falta de contentamento com o próprio corpo antecede em muitos anos a pandemia.

Em 2011, o aplicativo de compartilhamento de fotos Snapchat lançou filtros que bombaram rapidamente entre os usuários. Em seguida, em 2018, foi oficializada a “Dismorfia de Snapchat”, em alusão ao aplicativo que inaugurou a era dos rostos “falsos” e deformados na Internet.

Atualmente, o Instagram, que já tinha a fama de perfeccionismo on-line, segue os passos do concorrente e investe cada vez mais em filtros, que dentre outras coisas, alteram as características pessoais de cada um.

A Internet, portanto, aumentou ainda mais a sua influência na afirmação do padrão estético inalcançável. Ao oferecer meios digitais de aproximação desse modelo utópico, imitando procedimentos cirúrgicos, as pessoas começaram a se sentir cada vez piores com as suas realidades e a buscar reafirmar esse padrão na vida real.

Cirurgias plásticas

Assim, a partir de 2016, o número de cirurgias plásticas no Brasil entre jovens não parou de subir, e hoje em dia ocupamos o primeiro lugar no ranking mundial desses procedimentos, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Em dezembro de 2020, após quase um ano de quarentena, o modo de socializar já estava consolidado no meio digital, principalmente por plataformas de chamada de vídeo. Com essa atualização das relações interpessoais, distúrbios de aparência também pluralizaram suas formas de apresentação.

Surgiu, então, o termo “Dismorfia do Zoom”, que ao fazer referência ao aplicativo de videochamadas, aponta a nova preocupação dos especialistas: o tempo redobrado que as pessoas gastam em reuniões virtuais, encarando a sua própria imagem. A câmera frontal se tornou um gatilho para problemas bem maiores e mais profundos.

Na prática, o que piorou?

Desse modo, com a pandemia, os fatores agravantes para estimular o desenvolvimento da condição do TDC aumentaram para:

  • causas hereditárias;
  • doenças psicossociais preexistentes que podem agravar;
  • ansiedade e estresse acumulados devido à quarentena;
  • aumento de exposição às redes sociais, causando comparação com outras pessoas;
  • aumento de visibilidade de si mesmo, em câmeras ou espelhos;
  • insatisfação com detalhes do próprio corpo.
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As reuniões por videochamada se tornaram um pesadelo e grande gatilho para o desenvolvimento do TDC. (Imagem: AndreyPopov/iStock)

Assim, na quarentena, a autoaceitação se mostra cada vez mais difícil para quem sofre de distúrbios desse tipo. O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SP, Dr. Felipe Coutinho, em entrevista para a jornalista Ana Marques do site Tecnoblog, afirmou e exemplificou o aumento crescente de cirurgias estéticas na região do rosto e pescoço:

“A incorporação da videoconferência no cotidiano tem influenciado as demandas de pacientes em consultórios de cirurgia plástica. No início da pandemia, as pessoas ainda estavam se adequando às ferramentas para reuniões virtuais. Naquele momento, bastava aparecer e fazer a reunião.

Em seguida, o olhar foi se tornando gradualmente mais crítico sobre a forma como as pessoas apareciam nas videoconferências. (…) Ao mesmo tempo, passamos a reparar mais no rosto, pois ele fica em evidência. Rugas, a região das pálpebras, o “bigode chinês” (expressão facial ao lado dos lábios), tudo ganhou mais atenção.”

Tratamento, causas e diagnóstico de dismorfia corporal

O tratamento e a causa possuem pontos em comum nesta doença. Já que a causa social pode ser uma das origens do problema, cuidar psicologicamente da sociedade como um todo também previne o aumento do número de casos.

Porém, além disso, é importante ressaltar que a doença também pode ser causada por motivos hereditários ou qualquer tipo de gatilho externo. Essa incerteza torna primordial a necessidade de acompanhamento e boa estabilidade psicológica desde cedo, tornando o indivíduo o mais imune a possíveis estímulos. O tratamento, por si só, consiste em ajuda psiquiátrica e muitas vezes é acompanhada de antidepressivos.

Também é importante ressaltar que o diagnóstico deve ser feito por um médico especializado. Porém, os sintomas que requerem atenção vão além da comparação excessiva com corpos alheios, pois é necessário observar quando os indivíduos começam a evitar situações sociais e fotos.

Em tempos de pandemia, a melhora será notada depois que a vacinação alcançar um número significativo e com a anulação ou redução das medidas restritivas. Atendimentos psiquiátricos presenciais, atrelados à volta do contato físico nas relações sociais assustará em um primeiro momento, mas proporcionará um alívio em boa parte das questões que afligem as pessoas nessa condição atualmente.

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