O autoexame pode ser o primeiro passo, mas descobertas médicas impressionantes, que utilizam a mais alta tecnologia, vivem aparecendo nas manchetes. Robôs que fazem cirurgia cerebral. Camundongos nascidos de células-tronco. Microchips que podem reverter a cegueira… Mas, quando se fala em salvar vidas, a verdadeira maravilha é um grupo de exames que podemos fazer em casa.

Envolvem tão pouca tecnologia que mal parecem exames, mas podem nos proteger de doenças fatais, como o diabetes, que matou 406.452 pessoas no Brasil entre 2010 e 2016, segundo o Ministério da Saúde. Estima-se que cerca de 4 milhões de pessoas no mundo inteiro tenham diabetes, e as doenças cardiovasculares em decorrência da doença roubarão mais de 17 milhões de vidas.

Asma, depressão e até câncer: os autoexames a seguir podem ajudá-lo a evitar esses males.

Desconfiado? Não precisa. Esses sete exames são simples mas eficazes, comprovados por pesquisas e adotados por especialistas.

Os médicos torcem para que você os faça hoje mesmo!   

Por Sari Harrar

  • domoyega/iStock

    1. Exame para detectar a depressão

    A depressão faz mal ao coração, à memória e à saúde em geral.

    A imprensa mundial dá cada vez mais espaço à luta contra a depressão e às novas pesquisas sobre o desenvolvimento de antidepressivos. Ainda assim, em todo o mundo, cerca de 75% das mulheres, homens e crianças deprimidos nunca receberam tratamento adequado.

    Em parte, isso se deve aos médicos que “pisam na bola”. Quando o psiquiatra Alex J. Mitchell, da Universidade de Leicester, no Reino Unido, analisou 41 estudos que envolviam 50 mil pessoas do mundo inteiro,
    descobriu que, em 50% dos casos, os médicos não perceberam a depressão. Essa negligência é importante, pois a depressão não diagnosticada está ligada a um risco maior de diabetes, doença cardíaca e outras doenças crônicas, sem falar no risco de suicídio.

    Você pode fazer

    Pode ser difícil verificar se estamos apenas um pouco tristes ou deprimidos a ponto de pedir ajuda. Mas, quando clínicos gerais da Nova Zelândia
    fizeram algumas perguntas a 421 pessoas, identificaram 97% das que tinham depressão, como afirmam os pesquisadores da Universidade de
    Auckland. O questionário não é perfeito; como outros exames para identificar a depressão, há muitos resultados falso-positivos. Considere-o como o início de uma conversa com o médico:

    1. No mês passado, você se sentiu frequentemente tristonho, deprimido ou sem perspectivas?

    2. No mês passado, sentiu frequentemente pouco interesse ou prazer nas
    suas atividades, seja no trabalho, na rotina doméstica ou até no asseio
    pessoal?

    O próximo passo

    “Para quem respondeu a pelo menos uma pergunta, vale a pena procurar um psiquiatra ou psicólogo”, diz um professor de psiquiatria do Rio de Janeiro. “O ideal é que se alie terapia cognitiva comportamental ao tratamento farmacológico. É importante que se observe a vida do indivíduo, para que não se confunda depressão clínica com humor depressivo (também conhecido como estado de luto), que pode ocorrer temporariamente após uma perda significativa, seja emocional ou material.”

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    2. Leia a palma da mão

    A deficiência de ferro nos deixa exaustos e pode reduzir a imunidade, mas as mãos revelam isso.

    O ferro é o mineral da “energia”: recebe o oxigênio de cada inspiração e o leva às células do corpo. Quem tem deficiência de ferro pode apresentar fadiga intensa, problemas de concentração, falta de ar e batimentos cardíacos irregulares. Infelizmente, a anemia não é rara: estima-se que 30% das gestantes e 50% das crianças em idade pré-escolar a tenham. “É comum ser anêmico sem saber, porque a anemia vem aos poucos, a menos que seja decorrente de perda sanguínea significativa. Neste caso, a anemia logo manifesta sintomas agudos”, diz hematologista.

    Você pode fazer

    Abra as mãos com a palma para cima. As linhas estão pálidas? “Não importa a cor natural da pele; a palidez incomum das palmas, das gengivas e da parte interior das pálpebras pode ser sinal de baixa circulação do sangue nos capilares próximos da superfície da pele, o que se deve à deficiência de ferro”, diz especialista.

    O próximo passo

    Peça ao médico que solicite um hemograma, exame que mostra os índices de hemoglobina e hematócrito. Se necessário, o médico pode solicitar um exame de ferritina sérica, que mede o nível de uma proteína que ajuda a armazenar o ferro. Este exame é recomendado na suspeita de anemia ferropriva.

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    3. Batuque com os pés

    As arritmias cardíacas causam até 20% dos casos de AVC. Este exame simples pode ajudar a preveni-los.

    Batimentos cardíacos irregulares – as flutuações e palpitações da fibrilação atrial, forma mais comum de arritmia cardíaca, são responsáveis pela maioria dos acidentes vasculares cerebrais (AVCs), doença que mais mata no Brasil. A maioria poderia ser evitada mas, por se tratar de um mal que ataca de forma silenciosa, a arritmia não é detectada a tempo em mais da metade dos casos. “A fibrilação atrial é um ritmo extremamente irregular que induz a formação de coágulos nas câmaras superiores do coração”, diz eletrofisiologista (RJ). “A arritmia sozinha já causa desequilíbrio para o corpo, de forma que há até risco de morte súbita, com a parada total do músculo. Mas, quando a batida seguinte força o sangue a sair, o coágulo pode ir direto para o cérebro e causar o AVC.”

    Você pode fazer

    Durante um minuto, bata o pé acompanhando o ritmo do coração (verifique o ritmo com o dedo no pescoço ou no punho). Em vários estudos, este exame revelou aos médicos mais de 90% das pessoas com fibrilação atrial confirmada pelo monitoramento cardíaco. “Este exercício pode ajudar o paciente a saber a hora de procurar o especialista. Se a batida for irregular a ponto de impedir que se marque o ritmo com o pé, relaxe por uma hora e tente de novo”, diz o especialista.

    O próximo passo

    O clínico ou o cardiologista pedirão um eletrocardiograma. Será feita, então, uma avaliação mais precisa, com teste ergométrico, Holter e ecocardiograma. Certas pessoas com fibrilação atrial tomam anticoagulantes para evitar AVCs.

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    4. Teste para o diabetes em dois minutos

    O diabetes descontrolado dobra o risco de doença cardíaca e encurta a vida em 10 a 15 anos. Eis como saber se você tem a doença.

    Com frequência assustadora, os médicos perdem a oportunidade de verificar se há diabetes em pessoas com risco elevado. O resultado: cerca de 6% da população brasileira é composta de portadores da doença, diagnosticada ou não. Assim, pegue o lápis; este autoexame é fácil, diz o Dr. Heejung Bang, do Weill Cornell Medical College, autor do estudo, e pode identificar nove em cada dez pessoas com risco de sofrer problemas graves de glicemia.

    você pode fazer

    Marque as respostas e depois some os pontos.
    1. Quantos anos você tem? (menos de 40: 0 ponto; 40 a 49: 1; 50 a 59: 2; 60 ou mais: 3)

    2. Você é mulher (0) ou homem (1)?

    3. Algum familiar (pai, mãe, irmãos) tem diabetes? (não: 0; sim: 1)

    4. Sofre de hipertensão arterial ou toma medicamentos para baixar a pressão? (não: 0; sim: 1)

    5. É gordo ou obeso? (peso normal: 0; acima do peso: 1; obeso: 2; muito obeso: 3)

    6. Pratica atividade física? (não: 0; sim: -1)

    O próximo passo

    “Se o total for de 4 pontos ou mais, há boa probabilidade de haver pré-diabetes”, diz Bang. “Se for de 5 ou mais, há grande risco de diabetes. Converse com o médico.” Segundo endocrinologista, “5% a 10% dos indivíduos nessa situação ficarão diabéticos em um ano”.

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    5. Toque os dedos dos pés

    A rigidez dos vasos sanguíneos faz o coração trabalhar mais. Este exame nada tecnológico pode ajudar a evitar infartos.

    Assim como os balões de festa de aniversário, os vasos sanguíneos saudáveis são flexíveis e se expandem e estreitam durante o dia. Mas, quando as artérias se enrijecem – por causa da idade, dos quilos a mais, do acúmulo de placas na parede dos vasos, da vida sedentária ou do diabetes –, a pressão sobe. E também aumenta o risco de AVCs e infartos fatais.

    O exame da rigidez exige equipamento de alta tecnologia, encontrado em laboratórios de pesquisa. Mas agora basta sentar-se no chão para ter uma ideia do estado das suas artérias: estão elásticas ou flácidas? Num estudo recente com 526 pessoas, pesquisadores verificaram que os mais ágeis no exercício de se sentar com as pernas estendidas e tocar os dedos dos pés também tinham artérias mais flexíveis, medidas pelo exame da onda de pulso aórtica.

    Qual a ligação? As paredes das artérias são feitas com os mesmos componentes – células musculares lisas e tecido conjuntivo – que os músculos dos quadris e das costas, como observa Kenta Yamamoto, que encabeça a pesquisa e trabalha no Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Norte do Texas. Assim, o que enrijece um terá o mesmo efeito sobre o outro.

    Realmente, há indícios de que as atividades que mantêm flexíveis os grandes músculos, como os alongamentos, podem “acalmar” a atividade neurológica que também afeta a flexibilidade das artérias. Outro estudo verificou que adultos que passam a seguir um programa de alongamentos regulares aumentam a flexibilidade da artéria carótida, que fornece sangue ao cérebro.

    Você pode fazer

    Sente-se no chão com as pernas retas e estendidas à frente do corpo, com os dedos dos pés para o alto. Curve-se a partir dos quadris e estenda os braços na direção dos pés. Tente tocar os dedos.

    Leia também sobre os ritos tibetanos.

    O próximo passo

    Quem não consegue alcançar os pés corre risco maior de rigidez arterial. Se não mediu a pressão nos últimos 12 meses, faça isso agora. “É bom medir a pressão arterial pelo menos de dois em dois anos”, diz o Dr. Yamamoto. Ele também afirma que acrescentar alguns alongamentos à rotina de exercícios pode aumentar a elasticidade dos músculos e das artérias.

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    6. Meça sua cintura

    Uma barriga grande faz disparar o risco de morte precoce, mesmo em quem não é gordo.

    A barriga protuberante é sinal de que há muita gordura visceral, uma gordura abdominal amarela e espessa que libera na corrente sanguínea ácidos graxos, hormônios estimulantes do apetite e substâncias químicas que promovem inflamações.

    Num estudo com 360 mil pessoas de nove países europeus, a cintura larga significava desastre até no caso de pessoas que não estavam acima do peso, aumentando em 79% o risco de morte prematura em mulheres e dobrando-o em homens. A gordura abdominal é perigosa principalmente para o coração e triplica o risco de doença cardíaca fatal, como indica um estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard, feito com 44.636 mulheres.

    Ainda assim, segundo especialistas, poucos médicos medem a cintura dos pacientes com peso normal, e, assim, talvez deixem de avaliar a gordura abdominal de pacientes magros.

    Leia também 40 coisas sobre sua saúde que os médicos querem que você saiba.

    Você pode fazer

    Tire a camisa e fique diante do espelho. Envolva a cintura com a fita métrica e leve-a até o alto dos ossos do quadril. Essa é a posição recomendada para uma medição mais precisa. Não prenda a respiração nem aperte a fita métrica. Escreva o número encontrado.

    O próximo passo

    Para homens, o risco de diabetes e doença cardíaca começa a subir a partir dos 94 cm; 100 cm ou mais já é alto risco. Para mulheres, o patamar de perigo é 81 cm, e 89 cm marcam o início do risco mais elevado. Qual a melhor maneira de reduzir a gordura visceral? Exercícios e dieta mediterrânea (hortaliças, cereais, peixe e azeite de oliva, nozes e castanhas). Como a gordura visceral é mais ativa em termos metabólicos do que a gordura dos quadris ou do resto do corpo, podemos perdê-la mais depressa assim que começamos a emagrecer.

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    7. Faça o exame da respiração

    A asma não tratada causa cerca de 367 mil internações e mata 8 pessoas por dia. 

    A asma pode tornar difíceis os exercícios e transformar em desafios as atividades cotidianas. Mas costuma ser negligenciada, principalmente em adultos. Num estudo com mais de 4 mil homens e mulheres afro-americanos, 10% tinham sintomas de asma não diagnosticada.

    Especialistas dizem que mais ou menos a mesma proporção de pessoas acima de 65 anos têm a doença sem saber. “Talvez pensem que só têm problemas respiratórios porque estão ficando velhos”, diz o pesquisador Dr. Paul Enright, da Universidade do Arizona. “Mas não se deve minimizar o problema. A asma não diagnosticada pode até ser fatal.”

    Você pode fazer

    Faça a si mesmo estas duas perguntas, usadas para avaliar a saúde respiratória em dois estudos com cerca de 27 mil pessoas. São simples, mas podem identificar 90% dos asmáticos:

    1. Às vezes você tem chiado no peito?

    2. Sente falta de ar quando se exercita ou se esforça?

    O próximo passo

    Se a resposta a uma das perguntas (ou às duas) foi sim, peça ao médico que confira se você tem asma, aconselham os pneumologistas. “Dependendo da gravidade dos sintomas, que podem indicar a asma mais leve (intermitente) ou a perene, com crises frequentes, o médico pode receitar um inalador ou solicitar um exame, como a espirometria, para avaliar o funcionamento pulmonar antes de medicar o paciente”, diz especialista.