Faça uma busca
Saúde

Abóbora: um fruto muito versátil

Nesta edição da seção "Eu sou a comida em seu prato", da edição de novembro da Revista Seleções, chegou a vez da abóbora dar o seu depoimento!

Escrito por:

Julia Monsores

Redator
abobora
Smitt/iStock
Publicado em: Última atualização:

Estamos em minha época do ano favorita. É agora que os amarelos, marrons e alaranjados da estação ocupam seu lugar no repertório outonal de cabeças de abóbora nas festas do Dia das Bruxas, nas mesas, no leite com abóbora e nos temperos para esquentar a barriga. Eu me sinto muito amada: sou o fruto que tem todos os papéis principais.

Table Of Contents[ Hide ]

Mas vamos esclarecer algumas coisas, porque sei que você está um pouco confuso. Vejo isso em seu rosto todo ano quando você descobre que a “abóbora” da torta de abóbora não é a que você imaginou, mas a das variedades honeynut, gigante ou outra bem doce. Ouço isso em sua voz quando você pede um prato de abóbora e o garçom lhe traz abobrinha. Realmente, é confusa a quantidade de tipos espremidos numa única categoria de fruto que os norte-americanos nativos chamavam de askútasquash.

Em julho, sou a abobrinha primaveril; no outono, cabotiá, cheirosa e espaguete, além das morangas, ótimas para esculpir e não tão boas para comer em tortas. Deixe minhas variedades de inverno secarem no caule e me transformo em cabaças.

Abóbora: a primeira planta domesticada

Essa última variedade minha é que me trouxe até onde estou hoje. A maioria das variedades domesticadas chamou a atenção dos seres humanos por ser comestível, mas vocês começaram a gostar de mim porque eu era muito útil quando incomestível. É provável que eu seja a única planta a ser usada no mundo inteiro por povos pré-históricos e a primeira planta domesticada.

Por quê? Porque, quando seca e oca, sou multidão: sirvo de balde, de caixa de ressonância de instrumentos musicais (como a marimba e todos os chocalhos desde o início dos tempos) e de boia em docas flutuantes e redes de pesca; sirvo de decoração e posso ser esculpida, pintada, usada como adorno; sou utensílio para comer, cachimbo e panela (jogue pedras quentes dentro de mim e pronto: a água ferve!).

Os norte-americanos nativos me usavam como casas de passarinho; até hoje, me transformar em casa para andorinhas-azuis é um projeto favorito dos observadores de aves com pendor para o artesanato. Sou tão versátil que, aonde quer que as pessoas vão, ainda vou com elas. (Os motociclistas nigerianos descobriram para que não sirvo quando o país baixou uma lei tornando o uso do capacete obrigatório e muitos evitaram comprá-lo usando cabaças.)

Confira algumas receitas com abóbora

Finalmente, fui cultivada como alimento no México, há cerca de 9 mil anos, quando então dei outra volta ao mundo, dessa vez como comida. Tornar-me palatável exigiu cruzamentos para eliminar o excesso de cucurbitacina, que me dá um sabor muito amargo. Ainda tenho vestígios da toxina e, embora algumas fontes listem seus benefícios à saúde, em quantidade maior ela já deixou vocês, humanos, muito doentes, sem cabelo e até mortos. Você não precisa se preocupar com isso caso me compre no supermercado; o nível de toxina só aumenta se houver polinização cruzada acidental com abóboras selvagens. Mas atenção, hortelões: se sua abóbora recém-colhida estiver amarga, não a coma.

Muuuuitas variedades!

Como você deveria me comer? Ora, de todos as formas, é claro: colha abobrinhas verdes e amarelas que estejam tenras e não sejam muito grandes, e não esqueça a cambuquira, minha linda flor laranja-amarelada, que fica ótima em omeletes, refogados e recheada com queijo. E sirva-se das variedades maiores: mogango, cheirosa, espaguete ou cabotiá; todas podem ser comidas com ou sem casca.

O mogango, a abóbora-cheirosa e a cabotiá podem ser cortados ao meio para remover as sementes e levados ao forno até ficarem macios. Polvilhe açúcar para obter uma crosta caramelizada. Como os franceses, você pode me rechear com uma mistura bem temperada de pão ou de arroz e carne, e terá um belo prato principal para sua refeição.

Quanto mais eu ficar castanha e caramelizada, mais doce me torno; portanto, não tema me assar em temperatura alta (220°C e até 230°C) e não me tire do forno cedo demais. É difícil cozinhar demais uma abóbora; depois de amaciar, fico assim, me derretendo e absolutamente deliciosa. Para fazer uma sopa, asse e doure profundamente os meus pedaços; depois, bata ou amasse para obter uma doçura maior e mais intensa. Ah, se vir uma cabotiá verde ou laranja na feira, compre. Parece uma moranga, mas é muito mais gostosa (só que mais difícil de esculpir, por causa da polpa substancial e adocicada).

Posso ser versátil e muito tolerante na culinária, mas sejamos francos: não sou macarrão. Aqueles “espaguetes” de abóbora e abobrinha da moda são chatos e insossos. Portanto, eis um conselho humano de despedida: esqueça-os. 

por Kate Lowenstein e Daniel Gritzer