Faça uma busca
|
Publicado em: 19 de setembro de 2020

Mistério médico: A dor facial lancinante

Douglas Ferreira
Última atualização: 19 de setembro de 2020
Por: Douglas Ferreira

Mistério médico: A dor facial lancinante Imagem: klebercordeiro/iStock

Alguns casos intrigam até mesmo os médicos mais experientes. O caso médico abaixo certamente está nessa lista de mistérios médicos que intrigam os especialistas.

PACIENTE: Sanjib Choudhuri, empresário aposentado de 70 anos (nome alterado para proteger a identidade)
SINTOMAS: Episódios de dor facial lancinante
MÉDICO: Dra. Mojgan Hodaie, neurocirurgiã do Instituto do Cérebro Krembil, do Toronto Western Hospital

Sanjib Choudhuri se lembra com clareza da primeira vez em que sentiu dor súbita no lado esquerdo do rosto. Foi no fim da década de 1990. O ocupado executivo, então com 40 e poucos anos, deu uma pausa no trabalho para passar um tempo com o filho adolescente e comprar um novo Mustang conversível. “Eu estava dando uma volta com a capota abaixada”, diz ele, “e senti uma dor rasgar o couro cabeludo por um nanossegundo, como um relâmpago saído do nada.” A sensação sumiu tão de repente quanto surgira.

Alguns anos depois, Choudhuri começou a notar um formigamento agudo e doloroso ao longo dos dentes e das gengivas. Ia e vinha, em geral quando estava num avião em viagem profissional, e a princípio ele atribuiu a sensação à mudança de pressão do ar. Mas o dentista diagnosticou um dente quebrado e recomendou tratamento de canal. No entanto, depois do procedimento, Choudhuri continuou a sentir pontadas na boca e surtos de dor no couro cabeludo sem nenhum padrão aparente.

Quando as dores ficaram mais intensas

Em 2010, as dores, embora ainda breves, começaram a ficar mais intensas e frequentes. O médico de uma clínica de pronto-atendimento não conseguiu achar nada claramente errado, nem o neurologista. Disseram-lhe que era possível que ele tivesse um defeito raro chamado nevralgia do trigêmeo, que afeta os nervos do rosto, mas os indícios eram pouquíssimos.

Nos anos seguintes, outro sintoma esquisito ficou mais frequente. “Eu ouvia um som elétrico dentro da cabeça”, conta ele. “Como um curto-circuito: sssshhhht.” O médico de família de Choudhuri ficou preocupado e pediu uma ressonância. Não havia tumor, mas as imagens mostraram uma leve malformação da cavidade dos seios nasais. Se estivesse causando pressão e sinusite crônica, isso poderia explicar a dor. O médico lhe passou remédios, que não ajudaram.

Finalmente, em 2016, Choudhuri consultou uma especialista em dor nos dentes e na gengiva. Ela lhe disse que, se fosse nevralgia do trigêmeo, ele estaria tomando o remédio errado. O analgésico para dor neuropática que ela receitou reduziu o desconforto e inspirou Choudhuri a ler mais sobre aquela nevralgia. “Percebi que provavelmente era o que tenho”, recorda. Ele se considerou com sorte, porque a medicação funcionou.

O retorno para uma vida de dor

Mas a sorte de Choudhuri acabou dois anos depois, quando a doença piorou outra vez. Uma dor explosiva e excruciante o acordou no meio da noite. “Foram trinta segundos de um cabo de alta voltagem preso dentro de minha cabeça”, descreve ele. A dor parou e recomeçou, várias e várias vezes, bombardeando-o durante seis horas antes de desistir. Choudhuri, agora separado da esposa e com filhos adultos, estava sozinho. Ficou alarmado e confuso com o que estava acontecendo. “Só fiquei deitado. Não fazia ideia do que acontecia e de quando pararia.”

Até toques leves no rosto ou nos dentes de Choudhuri provocavam uma dor horrível. “No chuveiro, a água escorrendo pelo rosto era como choques elétricos”, diz ele. Escovar os dentes, mastigar a comida ou até conversar com animação podiam provocar a agonia.

Ele decidiu resolver a questão e marcou uma consulta com a Dra. Mojgan Hodaie, neurocirurgiã de Toronto com interesse especial na nevralgia do trigêmeo. Se fosse mesmo o que tinha, talvez ela pudesse ajudá-lo; se não fosse, talvez obtivesse o diagnóstico adequado.

A calorosa e extrovertida Dra. Hodaie se lembra da primeira vez que atendeu a um caso de nevralgia do trigêmeo quando estudava medicina. Na época, a cirurgia para tratar o problema era mais arriscada do que hoje e durava seis horas. Isso a deixou impressionada.

“Toda a parte de trás do cérebro ficava exposta, e a anatomia era incrível”, diz ela. Metade dos pacientes que a procuram hoje para avaliar a nevralgia não a tem ou não se beneficiaria de uma cirurgia naquele momento. Mas, quando examinou Choudhuri, ela não teve dúvida: todos os sintomas dele se encaixavam. Uma ressonância magnética especial e detalhada das estruturas nervosas confirmou a suspeita.

Sabendo mais sobre a nevralgia

Na nevralgia do trigêmeo clássica, um vaso sanguíneo e um nervo estão próximos demais. Depois de contato prolongado, acredita-se que o revestimento do nervo se desgaste; aí o vaso pressiona as sensíveis fibras nervosas e cria sinais lancinantes que o cérebro se esforça para suprimir. Os medicamentos ficam menos eficazes com o tempo.

Como a nevralgia do trigêmeo só afeta uma em 20 mil pessoas, há quem passe anos sem diagnóstico e tratamento corretos. “Com muita frequência, os pacientes extraem dentes sem necessidade”, diz a Dra. Hodaie.

Mas ela ajudou mais de mil pacientes com cirurgias. Em janeiro de 2020, foi a vez de Choudhuri. Hodaie afastou o vaso sanguíneo do nervo e inseriu entre eles uma minúscula barreira de Teflon, com muito cuidado para evitar lesões nas estruturas delicadas. O risco de complicação é de menos de 2%, mas podem surgir lesões cerebrais ou nervosas.

Quando acordou da cirurgia, Choudhuri soube instantaneamente que dera certo. “Havia um peso, como um machucado que a gente sabe que está lá e que vai doer se a gente se mexer”, diz ele. “E ele simplesmente sumiu.”

Embora o procedimento possa ser repetido caso necessário, em geral o conserto é de longo prazo na primeira vez. A Dra. Hodaie tem muita esperança em Choudhuri, porque a ressonância indicou que ele era um caso típico de nevralgia do trigêmeo: “Acho que a probabilidade está a favor dele.”

POR LISA BENDALL