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Publicado em: 14 de setembro de 2020

Queda na vacinação pode ser mais grave que a Covid-19 para crianças, diz epidemiologista

Sem vacina, pequenos podem contrair doenças que põe a vida em risco e deixam sequelas graves

Imagem: Choreograph/iStock

Sem atingir as metas de vacinação, o Brasil deve conviver em breve com um cenário mais grave do que a Covid-19 em crianças. Com a queda na vacinação, há risco do retorno de doenças capazes de atingir crianças com muito mais força e gravidade do que o novo coronavírus.

O alerta é da epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações entre 2011 e julho de 2019. "A Covid tem se mostrado uma doença que atinge menos as crianças, diferentemente das doenças evitáveis pela vacinação já presente no calendário", disse.

"Se os pais acharem que não vão vacinar seus filhos porque eles estão protegidos em casa, estão enganados. Geralmente, quem leva as doenças para as crianças menores de dois anos são os pais e irmãos que saem para a rua", afirmou, citando pesquisas que mostram esse cenário.

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De acordo com epidemiologista, postos estão equipados para vacinar na pandemia. (Foto: Sasiistock/iStock)

Ela lembrou que as salas de vacinação continuam abertas, mesmo com a pandemia, e equipadas para vacinar de forma segura. "É importante se preocupar com essas doenças que podem voltar a existir e trazer mortes e sequelas irreversíveis, como cegueira, surdez e paralisia", afirma.

A epidemiologista citou como exemplo o fato de que, em menos de dois anos com vacinação contra o sarampo abaixo da meta recomendada, a doença voltou a se estabelecer no país.

Assim como o sarampo, outras doenças podem voltar

Dados mais recentes de 2019 analisados pela reportagem mostram que é alto o risco de isso se repetir. Pela primeira vez em quase 20 anos, o Brasil não atingiu a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano completo. Geralmente, essa meta costuma variar entre 90% e 95%.

Porém, os índices ficaram entre 69% (caso da pentavalente, que protege contra difteria, tétano e outras doenças) e 91,7% (caso da tríplice viral, contra sarampo, caxumba e coqueluche).

Segundo Domingues, o cenário mostra que o Brasil pode estar se aproximando da rota de outros países que vivem uma redução sustentada na adesão à imunização. Além disso, pode indicar um padrão mais forte de hesitação em vacinar.

"Estamos vendo esse movimento de achar que não precisa mais tomar vacina, de acreditar em fake news, de achar que dá para levar [para vacinar] em um segundo momento e até esses grupos antivacina. Parece que temos um padrão mais forte que a gente não via antes no Brasil", disse.

No entanto, ela apontou outras hipóteses que também devem ser analisadas. Segundo Domingues, casos de desabastecimento foram limitados a algumas vacinas. Por isso, não explicam totalmente a queda na vacinação.

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Assim como sarampo, outras doenças perigosas para crianças podem voltar. (Foto: kipgodi/iStock)

"Por que vacinas que não tiveram desabastecimento historicamente também tiveram redução? Não me parece plausível que, pela falta da pentavalente, as mães não foram levar para nenhuma vacina", disse.

Ela citou a diferença nos índices entre doses de vacinas que, em tese, seriam aplicadas ao mesmo tempo.

"Ou os profissionais de saúde não aplicam concomitantemente, seja porque a mãe tem medo, ou ele mesmo não quer fazer a criança sofrer. Ou tem problema no sistema de notificação", disse Domingues, sugerindo que municípios verifiquem seus dados.

Queda na vacinação: oito de nove vacinas caíram nos índices

O problema não vem de agora. Os primeiros sinais de uma queda na vacinação começaram a ser registrados em 2015 e se agravaram em 2017, quando apenas uma vacina atingiu a meta indicada.

No ano seguinte, em meio a maior mobilização sobre o tema, a situação continuou grave, mas algumas vacinas tiveram leve recuperação. No ano passado, o Ministério da Saúde realizou a campanha Vacina Brasil. Mas a medida não foi suficiente para alavancar as taxas de cobertura, lembra Domingues.

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Atualmente, notícias falsas são um dos fatores que influenciam na queda da vacinação. (Foto: ViewApart/iStoc)

Na prática, os dados de 2019 mostram que, de nove vacinas, oito tiveram queda. A situação pode piorar em meio à pandemia. Dados preliminares do PNI mostram que, de janeiro a julho, as taxas de cobertura vacinal ficaram entre 51% e 66%.

"São dados estarrecedores", disse. De acordo com a epidemiologista, faltou uma ação mais forte do governo em incentivar a manter a vacinação em dia.

Por isso, ela defende que sejam retomadas discussões sobre medidas como aumentar a exigência da carteirinha de vacinação nas escolas.

"Não se trata de uma obrigatoriedade para entrar na escola. Mas você pode criar uma condicionalidade. É uma forma de fazer com que a criança, adolescente ou adulto retorne ao serviço de saúde", explica.

Vacinação é obrigatória

Nos últimos dias, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem feito controversas declarações de que "ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina". No entanto, para Domingues, a frase é contraditória.

Em primeiro lugar, porque a vacina já obrigatória na legislação, afirmou. Em segundo lugar, porque desmobiliza a população.

Segundo ela, a declaração é em razão da defesa do governo de que haverá uma vacina contra a Covid-19 em janeiro. Mas para a ex-coordenadora, o prazo não é plausível. "Se nenhum estudo terminou até hoje, não acredito que seja factível ter uma vacina antes de março", disse.

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Segundo a legislação brasileira, é obrigatório tomar vacina. (Foto: Natali_Mis/iStock)

De acordo com Domingues, o melhor seria incentivar a população a manter medidas preventivas até que haja uma perspectiva sólida.

"A população tem de entender que todas as medidas que temos hoje de usar máscara e ter distanciamento ainda precisam ainda ser feitas. Mesmo que a vacinação comece em fevereiro, você não vai ter 80 milhões de doses no posto de saúde ao mesmo tempo", explicou.

NATÁLIA CANCIAN/FOLHAPRESS

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