Para a ciência, a conexão entre bebida e câncer de mama é clara. Saiba tudo a seguir:

 

Achei que tinha feito tudo certo: amamentei os filhos, cuidei da alimentação, pratiquei exercícios.

Não tinha histórico familiar. Mas, em um exame, um par de colchetes vermelhos destacou algo preocupante no monitor da ultrassonografia. Carcinoma lobular invasivo. Um tumor de mama maligno, com quase três centímetros significava que eu estava com câncer em estágio 2.

Com 47 anos, eu era uma década e meia mais nova do que a média de idade para diagnóstico de câncer de mama. A jornalista que há em mim ficou curiosa: por que eu? A maioria dos indicadores mais óbvios não se aplicava a mim. A ocorrência mais alta é em mulheres com mais de 70 anos. Outros fatores de risco são terapia de reposição hormonal e obesidade.

Então vi um fator que me fez parar: consumo de álcool. Não bebo muito, mas, como a maioria das mulheres que conheço, bebi bastante na vida. Nenhuma vez os médicos me disseram que correria risco mais alto de câncer se não reduzisse a bebida.

Logo descobri que, em 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o álcool era um carcinógeno do Grupo 1. Ou seja, estava provado que causava câncer.

Não há dose segura conhecida para seres humanos, de acordo com a OMS. O álcool provoca pelo menos sete tipos de câncer e mata mais mulheres por câncer de mama do que por todos os outros tipos. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer estima que, a cada dose diária, o risco de câncer de mama sobe 7%.

As pesquisas que ligam o álcool ao câncer de mama são extremamente robustas. Mais de cem estudos, durante várias décadas, reafirmaram o vínculo, com resultados coerentes. O Instituto Nacional do Câncer dos EUA diz que até em pequena quantidade o álcool aumenta o risco de câncer.

Tudo isso foi um choque. Tinham me dito que o vinho tinto preveniria doenças cardíacas, não que provocaria câncer. Por que eu não conhecia o risco ligado ao álcool? Acontece que havia uma boa razão para a minha ignorância.

Os epidemiologistas começaram a reconhecer a conexão entre câncer e consumo de álcool na década de 1970.

Desde então, os cientistas encontraram explicações biológicas para o efeito carcinogênico do álcool, principalmente no tecido da mama.

Quando bebemos, as enzimas do corpo convertem até pequena quantidade de álcool em nível elevado de acetaldeído, um carcinógeno. O álcool danifica as células da boca e prepara o caminho para outros carcinógenos; estudos demonstraram que beber e fumar ao mesmo tempo provoca um risco muito maior de câncer de garganta, boca e esôfago.

O álcool continua sua trilha de dano celular quando as enzimas, do esôfago ao cólon, o convertem em acetaldeído, que pode se ligar ao DNA e causar mutações que levam ao câncer, principalmente no cólon.

O álcool é suspeito de dar um duplo golpe no tecido da mama porque ele também aumenta o nível de estrogênio, que promove divisão celular mais rápida na mama. Isso pode provocar mutações e, em última análise, tumores.

Os pesquisadores estimam que o álcool seja responsável por 15% dos casos e mortes por câncer de mama nos Estados Unidos.

O Dr. Walter Willett, professor de Epidemiologia da Escola T. H. Chan de Saúde Pública de Harvard, realizou estudos sobre álcool e câncer de mama e diz que as mulheres que consomem dois ou três drinques por dia têm um risco vitalício de cerca de 15% a 25% maior do que as abstêmias. Para comparar, a mamografia reduz em cerca de 25% a taxa de mortes por câncer de mama.

“O álcool pode desfazer tudo isso com cerca de duas doses por dia”, diz o Dr. Willett.

Em 1998, a Califórnia acrescentou o álcool à lista de substâncias químicas causadoras de câncer que exigem aviso no rótulo. No ano seguinte, quando, pela primeira vez, o Congresso impôs avisos em rótulos de bebidas alcoólicas no país inteiro, os defensores da rotulagem tentaram incluir o câncer.

A indústria reagiu com uma audaciosa campanha de marketing.

Auxiliado por pesquisas que financiava desde o fim da década de 1960, o setor se esforçou para reconfigurar a bebida como base de um estilo de vida saudável, como as saladas e a corrida.

A indústria vinícola saiu na frente. Em 1988, o vinicultor Robert Mondavi disse ao New York Times que o vinho “foi exaltado durante séculos por governantes, filósofos, médicos, sacerdotes e poetas pela vida, pela saúde e pela felicidade”. Em 1991, o noticiário da TV americana declarou que pesquisas mostravam que o vinho conseguia remover depósitos de gordura das artérias; explicando assim por que os franceses têm menos doenças cardíacas do que os americanos, apesar de comerem muita carne vermelha, queijo e creme de leite.

Os pesquisadores logo refutaram a ideia de que o vinho explicava a saúde cardíaca francesa. Mesmo assim, o setor vinícola conseguiu incluir nas Diretrizes Alimentares de 1995 para Americanos que o consumo moderado de álcool poderia reduzir o risco de doença cardíaca em algumas pessoas.

Realmente, o suposto benefício à saúde de se beber moderadamente é uma das questões em que o setor mais insiste.

Sarah Longwell, diretora administrativa do Instituto Americano de Bebidas, declarou que “um número substancial de estudos bem realizados não revela correlação alguma entre o câncer e o consumo leve a moderado de bebidas alcoólicas”. Ela observou que beber moderadamente reduziria o risco de doença cardíaca, entre outros benefícios.

O Dr. Robert Brewer, que gerencia um programa sobre álcool nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) dos EUA, diz que “os estudos não sustentam que beber moderadamente traga benefícios”. As mais recentes Diretrizes Alimentares americanas removeram trechos que sugeriam que o álcool poderia reduzir o risco de doença cardíaca.

Os especialistas em saúde pública dizem que, mesmo que exista, o pequeno benefício cardíaco das bebidas alcoólicas jamais superará o risco. O álcool “nunca seria aprovado como remédio”, diz a Dra. Jennie Connor, professora da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, que escreveu um dos artigos de referência que ligam o álcool ao câncer. “Isso vai contra tudo o que os profissionais de saúde fazem.”

Tomei minha primeira cerveja com 13 anos.

Mais tarde, fui para uma escola secundária católica no estado de Utah, onde bebíamos para nos distinguir dos futuros missionários das escolas de maioria mórmon. Na universidade, a repressão contra menores que bebiam no campus provocou revolta.

A época em que mais bebi foi antes de ter idade suficiente para comprar bebidas. Minha experiência não é rara. Noventa por cento do consumo de álcool por menores americanos é em bebedeiras; definidas como quatro ou mais doses na mesma ocasião, de acordo com os CDCs.

O tecido da mama humana só amadurece completamente quando a mulher engravida. Antes disso, e em especial na puberdade, as célula sda mama proliferam rapidamente, o que as torna mais vulneráveis a carcinógenos. Essa em si é uma das razões pelas quais nunca engravidar é um dos fatores de risco de câncer de mama.

Com a primeira gestação aos 33, foram bons vinte anos bebendo e prejudicando minhas mamas, e a bebedeira adolescente pode ter sido especialmente devastadora.

O Dr. Graham Colditz, especialista em prevenção do câncer e epidemiologista do campus de St. Louis da Universidade de Washington, escreveu na revista Women’s Health, que “as mulheres que tomam sete doses no fim de semana; mas não consomem álcool nos dias úteis podem ter risco de câncer de mama maior do que as que tomam uma dose por dia”.

O Dr. Colditz diz que o esforço de prevenção do câncer não acompanha a tendência demográfica. Enquanto as mulheres do mundo inteiro retardam os filhos, ele diz que “realmente ampliamos esse período da vida em que a mama é mais suscetível e não criamos uma estratégia de prevenção para contrabalançar o marketing das bebidas alcoólicas”.

Quando os indícios de que as mulheres são desproporcionalmente vulneráveis ao risco de câncer de mama ficavam claros, a indústria de bebidas montou uma campanha para que elas bebessem ainda mais.

O setor de bebidas destiladas, ante à queda das vendas, criou os “alcopops” – bebidas alcoólicas adoçadas, como Smirnoff Ice e Skyy Blue. Marlene Coulis, então diretora de novos produtos da AnheuserBusch, explicou, em 2002, que “a beleza dessa categoria é que traz novos bebedores, pessoas que realmente não apreciam o sabor da cerveja”.

Exatamente quem eram esses “novos bebedores” que não gostavam de cerveja? Mulheres jovens, diz David Jernigan, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston. Tradicionalmente, os jovens americanos tomam cerveja; mas, no início dos anos 2000, pesquisas mostraram que, cada vez mais, as mulheres preferiam bebidas mais fortes. Hoje, anúncios e produtos mostram o álcool como um bálsamo para a estressadíssima mulher americana. Há vinhos chamados Mommy’s Time Out (“folga da mamãe”), Happy Bitch (“vadia feliz”) e Mad Housewife (“dona de casa maluca”).

Os fabricantes de bebidas também encheram os anúncios de fitas cor-de-rosa e promessas de doar receita para entidades ligadas ao câncer de mama.

“Eles estão vendendo um carcinógeno”, diz Robert Pezzolesi, da Aliança pela Política do Álcool, de Nova York. “Dá para imaginar se a Philip Morris fizesse um maço de cigarros cor-de-rosa? As pessoas pegariam em armas.”

O consumo de bebidas por mulheres aumentou 16% entre 2001 e 2013, de acordo com um estudo do Instituto Nacional Americano sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA, na sigla em inglês). Hoje, 71% das mulheres brancas bebem, contra 64% em 1997, de acordo com um uma análise do Washington Post. A taxa de mortes de mulheres brancas relacionadas ao consumo de álcool mais do que dobrou entre 1999 e 2015.

O anúncio é explícito: uma taça de vinho se derrama numa toalha formando a imagem de uma mulher. “O álcool é carcinogênico”, diz o narrador; que aconselha a limitar o risco não tomando mais de duas doses. A campanha publicitária foi ao ar em 2010 na Austrália Ocidental.

Outros países começaram a dar atenção ao risco de câncer causado pelo álcool.

Pela primeira vez, a Organização Mundial da Saúde divulgou em 2010 uma estratégia global para reduzir os danos do álcool. A entidade reconheceu o câncer como um desses danos e conclamou os países a implementarem medidas para reduzir o consumo. Muitos o fizeram. A Coreia do Sul reduziu o limite recomendado; e as novas diretrizes holandesas incentivam as pessoas a não beberem e, caso bebam, a não consumirem mais de uma dose por dia. Até os russos aumentaram os impostos sobre bebidas alcoólicas.

Em 2016, a Grã-Bretanha reduziu o limite recomendado de consumo de álcool dos homens para o mesmo nível das mulheres. Sally Davies, secretária-geral de saúde da Inglaterra, disse à revista médica BMJ que, “se pegarmos mil mulheres, 110 terão câncer de mama sem beber. Se beberem o que está nas diretrizes, mais vinte mulheres terão câncer por causa disso. Dobremos o limite das diretrizes e mais cinquenta mulheres em cada mil terão câncer […] Isso não é provocar pânico à toa. Isso é um fato”.

Essa fala franca não é do tipo que se ouve nos Estados Unidos. Durante mais de uma década, a indústria de bebidas combateu regulamentos de saúde pública que visavam reduzir o consumo.

O setor criou campanhas bem-sucedidas para permitir a venda de bebidas alcoólicas em supermercados; e para reduzir as restrições de horário em que bares e restaurantes podem servir bebidas. Enquanto outros países consideram a recomendação da OMS de cobrar impostos mais altos sobre bebidas alcoólicas; a lei tributária americana de 2017 reduziu o imposto sobre elas.

O consumo de álcool per capita dos Estados Unidos, que em 1997 chegou ao ponto mais baixo, em duas décadas atingiu níveis nunca vistos.

Depois da cirurgia, o oncologista me encaminhou a uma nutricionista especializada em câncer.

Além de mais peixe e linhaça, ela recomendou brócolis, feijão e tofu. Em momento algum, tocou no assunto do álcool. “Há mais dados a favor de reduzir o álcool do que de comer brócolis e tofu”, diz a Dra. Noelle K. LoConte, oncologista e professora da Universidade de Wisconsin. Ela diz, porém, que a mensagem sobre álcool e câncer ainda não se espalhou, nem entre os oncologistas.

Em novembro de 2017, a Dra. LoConte foi um dos autores da declaração oficial da Sociedade Americana de Oncologia Clínica de que o álcool traz risco de câncer e pediu medidas políticas para reduzir o consumo; como aumento do imposto, respeito mais estrito às leis contra consumo por menores e restrições a pontos de venda.

Há um imenso corpo de pesquisas em apoio à eficácia dessas medidas. Mas poucos grupos de saúde pública em Washington fazem lobby a favor delas.

A indústria preencheu a lacuna e criou entidades sem fins lucrativos para promover o consumo “responsável”. Os grupos do setor as usaram para responder às notícias sobre álcool e câncer.

Quando pedi ao Beer Institute que comentasse essa reportagem, um porta-voz me enviou um relatório da Aliança Internacional pelo Consumo Responsável de Álcool; entidade fundada pelas maiores produtoras de bebidas do mundo; e citou uma frase do relatório: “A associação mais clara do risco de câncer é com o consumo excessivo, principalmente com o consumo excessivo regular durante longos períodos.”

Mark Petticrew, professor de Saúde Pública, constatou que muitos sites e entidades sem fins lucrativos do setor de bebidas iludiram ativamente o público. Eles insinuam que só bebedores problemáticos correm risco de câncer; e apresentam longas listas de outros fatores de risco para confundir os leitores, em especial sobre câncer de mama.

“As mulheres consumidoras são mais preocupadas com a própria saúde do que os homens”, explica Petticrew. “A mulher que bebe é a última pessoa que eles querem que seja bem informada.”

A Dra. Marisa Weiss, oncologista e fundadora do site BreastCancer.org, dá palestras em universidades para explicar às jovens o risco que correm. “Vejo que aquelas mesmas garotas ficam completamente de porre à noite”, lamenta ela, que entende por quê. “É porque é relaxante. É divertido.”

Nunca terei certeza se o álcool causou meu câncer.

Os fatores são muitos. Em 2017, um estudo constatou que o uso de anticoncepcionais aumenta o risco de câncer de mama mais do que se acreditava. O que sei é que reduzir a bebida é o que eu poderia ter feito para me prevenir; se eu estivesse bem informada.

Agora praticamente abri mão do álcool para aumentar minha probabilidade contra a recorrência. Não dá para saber que faria o mesmo se, quando tinha 15 anos, alguém me dissesse que beber causaria câncer. Não há garantia de que eu não fosse igualzinha às estudantes com quem a Dra. Weiss fala. Mas pelo menos as estudantes da Dra. Weiss podem optar – elas foram avisadas do risco. Como a maioria das mulheres, não tive essa opção, e uma indústria poderosa trabalhou para me manter assim.

Por STEPHANIE MENCIMER