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Publicado em: 1 de agosto de 2020

Ria e seja mais inteligente

O humor estimula o cérebro e, de quebra, nos torna mais atraentes.

Imagem:

De dia, Ori Amir é um comedido professor de 30 e poucos anos. Dá aulas de psicologia e neurociência na graduação, faz pesquisas sobre o funcionamento do cérebro e cumpre o horário comercial regular no campo arborizado do Pomona College, no sul da Califórnia.

Mas seus alunos não se enganam. Já assistiram aos vídeos no YouTube que documentam sua outra identidade não tão secreta assim. Num deles, Amir segura um microfone, em pé no palco do Alex Theater, de 1.400 lugares, em Glendale, na Califórnia, com uma camisa de rúgbi listrada, jeans desbotado, botas velhas – e um casaco de pele branca ridiculamente desgrenhado. É a segunda noite do Glendale Laughs Comedy Festival, e Amir dá um grande sorriso para o público sob a ampla barba, parecendo um urso de pelúcia de 1,85 m de altura, ruivo e amalucado. “Como podem ver pelo sotaque, sou neurocientista”, diz Amir, que passou a infância em Israel. “Onde trabalho, dizem aos professores que usem traje ‘esporte fino’. Isso é o melhor que posso fazer. Meu guarda-roupa vai do esporte ao inadequado.”

Amir gosta de dizer ao público e, às vezes, aos alunos que seu sonho é se tornar “comediante profissional e neurocirurgião amador”. (“Assim, poderia cortar cérebros por diversão!”)

Na verdade, ele já conseguiu combinar essas duas paixões aparentemente não relacionadas. Amir é um dos principais pesquisadores que estudam o modo como o cérebro cria e entende o humor. Essa especialidade pode parecer trivial, se comparada com outros campos do conhecimento. Mas a questão de por que achamos as coisas engraçadas fascina os filósofos há séculos.

Esta é uma época muito empolgante para Amir e seus colegas pesquisadores do humor. Faz poucos anos que as tecnologias de imagem, como a ressonância magnética funcional (RMf), nos permitiram ver como o cérebro funciona quando processa informações: que partes fazem o quê e que benefícios podem vir de exercitar as diversas áreas. Acontece que contar piadas, diversão há muito desdenhada como uma fuga frívola da realidade, pode nos deixar mais saudáveis e inteligentes. Há até indícios de que o senso de humor ajude a espécie humana a sobreviver.


A teoria do bom humor de Charlie Chaplin

Num protótipo da revista Reader’s Digest de 1920, Charlie Chaplin revelou a
surpreendente técnica minimalista de seus sucessos de Hollywood. “Fazer o público gargalhar é a ambição de muitos atores, mas prefiro espalhar os risos. É melhor quando há uma onda contínua de diversão, com uma ou duas gargalhadas estrondosas, do que quando a plateia ‘explode’ de dois em dois minutos. Moderação é uma ótima palavra, não só para atores, mas para todo mundo. A moderação de temperamento, apetite, desejo, maus hábitos e assim por diante é uma coisa excelente a cultivar.”


Para entender por que o humor é um “superalimento” para o cérebro, é bom saber o que esse órgão quer. Talvez você ache que ele preferiria fitar uma parede para não gastar muita energia. Mas o cérebro precisa de exercício. O que faz com que o cérebro se exercite? Informações. Quando os pesquisadores mandaram participantes olhar imagens enquanto seu cérebro era examinado com RMf, foram as complexas, como obras de arte, paisagens ou grupos de animais, que mais divertiram os neurônios.

A ativação desses neurônios – as células do sistema nervoso que, entre outras coisas, enviam e recebem informações sensoriais – “ilumina” as ressonâncias em cores vivas, quase psicodélicas. Na verdade, o efeito que ocorre lembra uma droga. O cérebro é cheio de receptores de opioides – isso, opioides, como nos remédios e drogas. Feitos de proteínas especializadas, esses receptores se projetam dos neurônios como anteninhas de rádio minúsculas para captar as mensagens que passam. Quando o tipo certo de molécula esbarra num receptor – talvez um dos opioides que ocorrem naturalmente no cérebro, como uma endorfina, ou uma substância sintética que se pareça com um deles, como heroína ou morfina –, surge no cérebro uma atividade que banha os neurônios com neurotransmissores do bem-estar e outras substâncias químicas. Quanto maior a quantidade de neurônios ativados (e quanto mais são ativados), mais prazer sentimos. Em essência, ficamos doidões quando aprendemos e resolvemos problemas.

Amir e seu mentor Irving Biederman, professor de neurociência e psicologia da Universidade do Sul da Califórnia, desconfiavam de que o humor pudesse alimentar o cérebro da mesma maneira que as informações complexas. Em geral, as pessoas que estudam o humor concordam que a maioria das piadas é construída em torno de uma incongruência – uma combinação inadequada, absurda ou surpreendente de duas ideias diferentes (um neurocientista de 1,85 m de altura… com um casaco de pele fofinho e botas gastas). Vemos ou ouvimos isso e ficamos confusos. Essa é a preparação. O clímax é a resolução. (Ah, essa é sua ideia de traje esporte fino!)

Assim, apreciar o humor não é diferente de resolver uma charada: traz uma satisfação semelhante. Em vez do momento eureca, temos um momento risada. Na verdade, Biederman e Amir teorizaram que, como o humor exige que o cérebro processe tipos distintos de informação (por exemplo, “não está quente demais no sul da Califórnia para vestir tantas camadas?”, e depois “O que é traje social?”), revelações engraçadas ativam partes diferentes do cérebro. Isso excitaria ainda mais os neurônios, levando à liberação de mais neurotransmissores e à ativação dos centros de recompensa do cérebro.

Para testar essa hipótese, Amir e Biederman recrutaram 15 alunos com a finalidade de observar 200 desenhos lineares simples durante uma RMf. Cada desenho vem com duas legendas: uma descrição “óbvia” e outra “interpretativa”. Numa figura com três T um ao lado do outro, a legenda óbvia diz: “conexões em T”. A legenda interpretativa poderia ser “válvulas de trompete”, porque os três T lembram os botões do instrumento.

Algumas legendas interpretativas foram projetadas para serem engraçadas. Num desenho com duas formas ovais horizontais dentro de uma vertical, a legenda óbvia diz “duas elipses horizontais pequenas dentro de uma elipse vertical grande”. A descrição interpretativa: “Close-up de um porco olhando o título dos livros da biblioteca.” (Pense nisso ou olhe o desenho da próxima página.) Pediu-se aos participantes que classificassem cada legenda como “não engraçada”, “um pouco engraçada” ou “engraçada”.

As legendas interpretativas iluminaram mais áreas do cérebro do que as outras, alinhando-se com a teoria cognitiva de que, por si só, o lampejo de uma ideia é agradável. Mas as ressonâncias revelaram que os lampejos humorísticos ativaram mais regiões. Quanto mais engraçada a classificação dada a uma legenda, mais neurônios eram disparados. É esse surto extra de ativação cerebral no momento em que “entendemos” a piada que transforma eureca em risada, concluíram Amir e Biederman. Os receptores de opioides estudados por eles ficam nas áreas de processamento de alto nível dos lobos temporais, que vão mais ou menos de trás das orelhas até os olhos, onde armazenamos as lembranças e associações que usamos para entender o mundo, e têm conexões com os neurônios dos gânglios basais, centro de recompensa do cérebro.

“Pensávamos nesses sistemas de percepção como estruturas relativamente mundanas cujo objetivo era apenas nos fornecer informações”, explica Biederman. “Mas, na verdade, obter informações novas é prazeroso.”

A partir daí, os pesquisadores levaram a análise adiante. Num estudo suplementar, Amir recrutou pessoas para redigir legendas para uma série de cartuns enquanto ele examinava o cérebro delas. Quando encontravam uma piada, ativavam-se as mesmas regiões que se iluminam quando as pessoas apreciam o humor. Como no primeiro estudo, quanto mais engraçadas as piadas, mais neurônios disparavam no cérebro dos participantes. Mas isso ocorria de forma diferente no tempo, aprimorando o processo e tornando-o mais poderoso. Quando “entendemos” uma piada, os neurônios são ativados numa explosão. Quando construímos uma piada, a atividade nas mesmas regiões do cérebro aumenta devagar, enquanto esprememos a mente atrás de elementos dessemelhantes que possamos vincular. Assim, se apreciar o humor é um bom exercício cerebral, escrever uma piada é um exercício turbin ado.

O humor ajuda a cognição de outra maneira. O riso alivia o estresse, e o cérebro trabalha melhor quando não é desacelerado pela preocupação. Em 2014, pesquisadores da Califórnia mostraram que participantes idosos que assistiram a um vídeo engraçado melhoraram a capacidade de aprender e reter novas informações, possivelmente porque a alegria reduz o nível de cortisol, hormônio do estresse que atrapalha a capacidade de recordar. Uma boa piada funciona como válvula de escape para o corpo inteiro. “O humor ajuda a reformular os estressores, desafios ou dificuldades que parecem insuperáveis”, diz Tom Ford, psicólogo social da Western Carolina University e coautor de The Psychology of Humor. “Quando se é capaz de rir de um estressor ou desafio, ele não parece tão grande. Parece mais administrável.” Por exemplo, pesquisadores de Hong Kong demonstraram que, quando pacientes em casas de repouso com dor crônica tinham acesso semanal a piadas, livros e vídeos humorísticos e dança e canto engraçados, a percepção da dor e da solidão diminuía. Também se sentiam mais felizes e satisfeitos com a vida. Outros demonstraram que o riso pode ser associado a aumento do fluxo sanguíneo, melhor reação imunológica, glicemia mais baixa e sono melhor.

Mas pode haver uma razão ainda mais forte para o senso de humor estar embutido no genoma humano. Além de nos tornar mais saudáveis e inteligentes, o humor também nos deixa mais atraentes para o sexo oposto. “Há um estudo gigantesco”, observa Biederman, “feito em 38 culturas. Em todas, homens e mulheres desejam que os potenciais parceiros sejam inteligentes. Mas como saber se alguém é inteligente?” Pelo menos nas culturas ocidentais, geralmente é pelo senso de humor.

Como criar e apreciar piadas exige que façamos conexões entre muitas informações isoladas, ter senso de humor demonstra que conseguimos pensar de maneira inovadora. Vejamos o cartum favorito de Amir e Biederman: um camundongo, fora de sua casinha, aponta um revólver para o gato, que ergue a pata em falsa submissão. “Seis tiros. Sete vidas. Faça as contas”, diz o gato.

Para apreciar a piada, é preciso saber que os camundongos geralmente são vítimas dos gatos, que muitos revólveres têm seis balas e que o dito popular é que os gatos têm sete vidas porque conseguem cair de pé. Também é preciso saber subtrair seis de sete para entender que o gato é que leva vantagem.

Um estudo da Universidade do Novo México feito com alunos constatou que os que tinham pontuação mais alta nos testes de inteligência também pontuavam bem na capacidade de humor – e diziam ter mais relações sexuais. Isso confirmou uma ampla literatura que indica que o humor pode ser uma característica fundamental para encontrar parceiros. Ser engraçado faz os possíveis parceiros se sentirem bem. E, ao assegurar que apenas as pessoas mais inteligentes, aptas e criativas procriem, protege a sobrevivência da raça humana. “O humor tem vários poderes inigualáveis”, diz Amir. “Força as pessoas a levar em conta pontos de vista diferentes. Reúne as pessoas; quando estão rindo, elas têm de concordar em algum nível. Reduz a dor associada às dificuldades da vida, exercita o cérebro… e nos deixa felizes.”

Como o senso de humor saudável pode tornar você mais inteligente, mais sexy e mais feliz, uma coisa é clara: encontre tempo em seu dia para algumas boas piadas.

5 dicas de como ser mais engraçado

Sem talento para fazer graça? Especialistas dão dicas para fortalecer sua veia humorística.

1. Questione os absurdos da vida

É uma especialidade de Jerry Seinfeld: “Por que a umidade estraga o couro? As vacas não ficam todo aquele tempo ao ar livre?”

2. Mexa-se

As pessoas engraçadas tendem a ser mais criativas, de acordo com o site brainpickings.org. Para buscar inspiração, as pessoas criativas se mexem:
“Dickens e Victor Hugo adoravam caminhadas enquanto pensavam; Mark Twain andava loucamente de um lado para outro enquanto ditava; Goethe […] compunha a cavalo; Mozart preferia o assento de trás da carruagem.”

3. Seja feliz

As pessoas felizes são mais engraçadas, dizem pesquisadores austríacos. “O aumento da depressão”, escrevem eles, está “associado a maiores problemas no uso do humor para lidar com eventos estressantes.” Eles verificaram que as pessoas alegres riem mais, o que pode ajudar você a se sentir mais engraçado – mesmo que decida contar esse tipo de piada: “Que lado do pato tem mais penas? O lado de fora.”

4. Seja rápido

“Os blocos de montar são piadinhas e ideias curtas”, explica o comediante Demetri Martin. Por exemplo: “A pior hora para ter um infarto é durante um jogo de mímica.”

5. Surpreenda

“Leve o público a supor uma coisa e surpreenda-o com algo diferente”, escreve o instrutor de comédia Jerry Corley em standupcomedyclinic.com. Eis um exemplo: “Nunca diga nada de mau sobre um homem até ter andado um quilômetro com os sapatos dele. Nisso, ele estará a um quilômetro de distância, sem sapatos, e você poderá dizer o que quiser.”

Fatos risíveis

O riso tem pouco a ver com piadas e humor

Robert Provine, neurocientista da Universidade de Maryland, constatou que temos probabilidade 30 vezes maior de rir de alguma coisa quando conversamos com amigos, mesmo que eles não digam nada muito engraçado. O riso lhes transmite que gostamos deles e sentimos empatia por eles.

Não faz emagrecer (sinto muito)

Embora o riso aumente em 10% a 20% o gasto de energia e a frequência cardíaca, seria preciso rir durante horas para queimar um saquinho de batata chips.

Os animais também riem

Pesquisadores da Inglaterra que passaram meses com colônias de chimpanzés em cativeiro constataram que eles riem o tempo todo. Em geral, é uma reação a perseguição, cócegas ou só surpresa. E há indícios de que os ratos riem – de um jeito agudo e ultrassônico; os filhotes riem muito mais do que os adultos.

É uma linguagem risível

O riso soa basicamente igual em todas as culturas, o que leva os pesquisadores a acreditar que conectava os ancestrais humanos sempre que se encontravam.

POR ADAM PIORE

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