Poucas coisas neste mundo nos ensinam mais sobre o outro do que os livros. Sejam eles de ficção ou não, a literatura pode nos servir como uma grande professora quando se trata de compreender realidades que não conhecemos ou não vivemos.

Além disso, há também aquela máxima tão popular que defende que por meio dos livros nós temos a oportunidade de viajar e conhecer lugares – alguns que existem apenas na fantasia – sem sair do lugar.  

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Apesar de todo esse benefício que a literatura pode nos trazer, e da beleza que é a ideia de nos tornarmos pessoas mais empáticas por sermos ótimos leitores, tudo isso, infelizmente, tende a ficar preso apenas no campo da teoria, pois na prática a realidade é completamente outra. 

De acordo com um estudo iniciado em 2003 pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, sob a coordenação da professora e pesquisadora Regina Dalcastagnè, o perfil do escritor brasileiro de ficção publicado por grandes escritoras é o mesmo há mais de 40 anos: homem, branco, classe média e nascido no eixo Rio-São Paulo.

E isso se reflete na literatura desses autores. Seus personagens tendem a ter o mesmo perfil deles. No máximo, com pouquíssimas diferenças.

E quando a gente pensa que é muito comum que autores escrevam apenas sobre aquilo que conhecem, fica muito difícil acreditar que teremos acesso a narrativas que difiram muito daquilo que já conhecemos, em maior ou menor grau. 

Isso quer dizer a literatura não nos faz mais empáticos? Não. Mas pode dizer que a gente corre o risco de estarmos tendo contato apenas com histórias que já conhecemos. 

Mas e agora? O que a gente faz?

A premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie deu um discurso que fez muito sucesso no qual ela fala dos perigos de uma história única. Em resumo, ela diz que quando temos acesso apenas a histórias que partem de uma mesma perspectiva é normal que a gente trate diversos estereótipos e preconceitos como uma verdade. 

O problema de ficarmos reféns de histórias únicas, e por consequência, de possíveis estereótipos e preconceitos, é que ela tende a desumanizar o outro. E não raro, sem essa intenção.

E, com isso, reforçamos esses estereótipos e preconceitos por acharmos que eles são reais, porque aquela versão da história que conhecemos é a única que conhecemos. 

Por essas e outras que quando Carolina Maria de Jesus lançou em 1960 o seu clássico Quarto de despejo, ela fez um sucesso estrondoso. Afinal, todo mundo queria ler o que aquela mulher negra, pobre e moradora da favela tinha para contar. 

O silenciamento de autores negros

Porém, temos outro problema: é muito comum que vozes não-brancas sejam silenciadas. Exatamente o que aconteceu com Ruth Guimarães, que no final de década de quarenta se tornou a primeira autora negra brasileira a ganhar destaque nacional, chegando a ser elogiada por Antonio Candido, o maior crítico literário que o Brasil já teve. Apesar de seu grande sucesso à época, hoje em dia poucos a conhecem.

E isso, sabemos, é consequência do racismo que é tão presente em nossa sociedade. 

Felizmente as coisas estão mudando. E a cada ano que passa o número de livros de escritores negros e indígenas só aumenta. E ao contrário do que muitos defendiam, eles vêm se tornando grandes sucessos comerciais. Não à toa que dos 5 livros mais vendidos da FLIP de 2019, 4 eram de autores negros e 1 indígena. 

Por isso tudo resolvemos preparar essa lista mais do que especial com a indicação de 35 livros escritos por autoras e autores negros de diversos países e dos mais variados gêneros para que possamos ter outra perspectiva do mundo. Esperamos que vocês gostem.

Boa leitura!

Por Arman Neto

Imagem: Arman Neto/Seleções

Escritos de uma vida, Sueli Carneiro 

Sueli Carneiro é uma das maiores intelectuais brasileiras. Filósofa, ativista social e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, ela é uma das chaves para se entender o Brasil.

Escritos de uma vida é uma coletânea de artigos publicados ao longo de sua trajetória, nos quais a defesa da mulher e do povo negro e o confronto ao racismo são temas centrais.

Com apresentação de Djamila Ribeiro e prefácio de ninguém mais, ninguém menos do que Conceição Evaristo, Escritos de uma vida é um livro essencial para se ter outra perspectiva do nosso país.


Imagem: Arman Neto/Seleções

Pesado demais para a ventania, Ricardo Aleixo

Pesado demais para a ventania é uma antologia de poemas de um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos, o Ricardo Aleixo.

Este livro reúne o melhor de 25 anos da produção poética de Aleixo, que multidisciplinar, também é artista plástico e performer. É simplesmente impossível ficar impassível ao seu trabalho, que é profundo e com uma preocupação estética que acerta todo mundo em cheio.

Um artista que todo brasileiro deveria conhecer.


Imagem: Arman Neto/Seleções

Uma autobiografia, Angela Davis

Angela Davis é uma das maiores ativistas de nosso tempo e disso ninguém discorda.

Publicada pela primeira vez em 1984, quando Davis tinha apenas 28 anos, a sua autobiografia, que além de contar a sua história da infância à carreira como professora universitária, é também um registro das lutas sociais estadunidenses durante as décadas de 60 e 70.

Uma leitura indispensável para quem que conhecer mais sobre um dos maiores ícones dos movimentos negro e feminista mundiais.


Imagem: Arman Neto/Seleções

Adeus, Gana, Taiye Selasi 

Taiye Selasi nasceu em Londres e foi criada no Massachusetts. Seu pai é ganês e sua mãe, nigeriana. Atualmente Selasi vive em Roma. E é a partir desse olhar multicultural e afropolitano que a autora constrói sua literatura.

Em Adeus, Gana, a morte de Kweku Sai, um cirurgião de renome, é o fio que conduz a narrativa. A notícia de sua partida faz com que a família que ele abandonou no passado se reencontre.

Adeus, Gana é uma história de amor, abandono e pertencimento, no qual Selasi se mostra uma dos grandes nomes da literatura contemporânea ao destrinchar os dramas das relações familiares.