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Scent of a Woman

How finding the perfect perfume turned out to be an act of self-affirmation

By Katherine Laidlaw from The Globe and Mail

When I was a child, I sat on my parents’ paisley bedspread and stared at the kaleidoscopic bottles of perfume arranged on my mother’s dresser. They cast rainbows around the room in the right light, and I was mesmerized. Less appealing were the scents themselves, combinations of chemicals my young nose was too untrained to understand. But I knew even then that they were symbols of glamour, subtle ways to send signals in the night.

As I got older, I began to experiment. I saved up my allowance and, like so many kids of the 1990s, spent it on travel-sized silver bottles of Gap Dream and Gap Heaven. As a teenager, my parents gave me Ralph by Ralph Lauren, because for some reason I wanted to smell like a tangerine putridly close to expiring. To no one’s surprise, the attention I most often caught was that of wasps at summertime barbecues. Later, I’d wear Chloé by Chloé, hoping in an awkward phase that it would flirt for me, and because my boyfriend at the time liked it. And then there was Philosophy’s Falling in Love, because I wanted so badly to be sweet to everyone I knew.

None of them lasted. And I realized, eventually, that every perfume I’d ever worn was an attempt to be something for somebody else. So I put them away.

It is not common knowledge that when you go into the hospital to have pre-cancerous cells removed, you come out smelling like rotten fish. The procedure leaves you with a scent that hangs on for more than a week. It makes sense; you go into an exam room to have a little part of you burned away, and you come out smelling a little like a burn. It’s a lingering, acrid reminder in the days afterwards, the days during which you’re not supposed to worry too much.

As anyone who has ever waited for test results knows, however, the unknown is an excruciating place to be stuck. For a month this spring, I wandered around, paid more attention, noticed better, wondered if I had cancer. As the weather turned warmer, the sky seemed the bluest of blue. I sat on a park bench beside a man rabidly scratching at a pile of lotto tickets, and I wished for a little bit of that kind of faith. Walking through the rain one afternoon, I watched droplets fall into puddles, unfurling into endless ripples. That’s how cancer grows, I thought. But it’s how time passes, too, if you’re lucky, the cycles of life growing wider and wider until they fade away.

Like so many moments that seem utterly trivial until they become pivotally significant, I stopped into a shop in April to buy a bottle of shampoo as mine was running low. After walking purposefully to the back of the store and grabbing a white tube of the usual stuff, I browsed a little, which I almost never do. A bottle nearby stood out to me, a glass vial that looked like something out of an apothecary shop. It read “Replica” in plain, blocky black type across the label. I’d never heard of the line, from the fashion house Maison Martin Margiela. The accompanying copy promised that the scent, Beach Walk, would evoke a stroll on the beach with its notes of salt air, coconut milk and bergamot, which seemed to me like a lot to accomplish in just one whiff. Still, I picked it up and sprayed some on my wrists.

I spent the rest of the afternoon with my wrists affixed to my face, like a scratch-and-sniff sticker, except the sticker was me. It was the least perfumy perfume I’d ever worn, and I knew right away I should have it and wear it and be my best scratch-andsniff self every day.

When I was young, perfume was about transformation. But in the weeks after my procedure, I learned to value a scent’s ability to transport. As I swiped it across my collarbones each morning, my new perfume helped me both to forget and to remember, to feel a little less afraid. Gone was the burn, healing slowly, and in its place were the unbridled smiles brought by memories of my best-loved days. Like when my dad would toss my sisters and me into the ocean’s waves as my mom and brother watched from shore; the feeling of awe as I stood, a speck of a human, facing a Pacific sunrise at daybreak; the afterglow of a near-perfect afternoon spent holding hands for the first time with someone new.

It seems natural, now, that such a scent would find me eventually, after 32 years of wandering, and that it would be a musky smell like a romp in the sand dunes, like unwashed, sunbaked summer skin, my favourite kind. A month or so after that serendipitous moment in the shop, I ran into an ex. We got to talking about perfume. “I can’t smell it,” he said, as I held my wrist up to his nose. But I could. I smiled. After all, it wasn’t for him, and in my mind I was already in the sand hundreds of kilometres away.


Tradução…

Perfume de mulher

Como encontrar o perfume perfeito veio a ser um ato de autoafirmação

By Katherine Laidlaw from The Globe and Mail

Quando era criança, eu me sentava na cama dos meus pais coberta com uma colcha estampada e olhava os frascos caleidoscópicos de perfume arrumados sobre a cômoda de minha mãe. Sob a luz correta, eles lançavam arco-íris pelo quarto, e eu ficava hipnotizada. Menos atraentes eram as fragrâncias propriamente ditas, combinações de substâncias químicas que meu jovem nariz era destreinado demais para entender. Mas eu sabia, já naquela época, que elas eram símbolos de glamour, formas sutis de enviar sinais na noite.

Quando fiquei mais velha, comecei a experimentar. Economizava minha mesada e, como tantas garotas da década de 1990, gastava nos frascos prateados pequenos de Gap Dream e Gap Heaven. Na adolescência, meus pais me deram Ralph de Ralph Lauren, porque, por alguma razão, eu queria cheirar como uma tangerina bem perto de apodrecer. Não foi surpresa para ninguém que eu chamasse a atenção sobretudo das vespas nos churrascos de verão. Mais tarde, usei Chloé de Chloé, na esperança de que, durante uma fase esquisita, o perfume flertasse por mim e porque meu namorado na época gostava dele. E depois veio o Falling in Love da Philosophy, porque eu queria muito ser doce com todos que conhecia.

Nenhum deles durou. E acabei por perceber que todo perfume que eu usasse seria uma tentativa de ser alguma coisa para alguém. Então, eu os guardei.

Não é de conhecimento geral que, quando você entra num hospital para remover células pré-cancerosas, sai cheirando a peixe podre. O procedimento deixa você com um cheiro que perdura por mais de uma semana. Faz sentido; você entra numa sala de exames para cauterizar uma pequena parte do corpo e sai cheirando um pouco como uma queimadura. É um lembrete persistente e acre nos dias posteriores, os dias durante os quais você não deve se preocupar demais.

Como qualquer pessoa que já aguardou resultados de exames sabe, porém, o desconhecido é um lugar excruciante para se ficar preso. Na primavera passada, durante um mês caminhei sem rumo, prestei mais atenção, percebi melhor, perguntei-me se estava com câncer. Quando o tempo esquentou, o céu ficou o mais azul dos azuis. Sentei-me no banco de um parque ao lado de um homem que raspava furiosamente uma pilha de bilhetes de loteria, e desejei um pouquinho daquele tipo de fé. Andando na chuva certa tarde, observei as gotinhas caírem nas poças, desdobrando-se em ondas infinitas. É assim que o câncer cresce, pensei. Mas é assim que o tempo passa também, se você tiver sorte, os ciclos da vida tornando-se cada vez maiores até desaparecerem.

Como tantos momentos que parecem extremamente triviais até que se tornem fundamentalmente significativos, parei numa loja em abril para comprar xampu, pois o meu estava acabando. Após ir direto ao fundo da loja e pegar um tubo branco do produto de sempre, dei uma olhada na loja, o que quase nunca faço. Uma garrafinha se destacou entre as demais: um frasco de vidro que parecia saído de uma farmácia antiga. No rótulo estava escrito “Réplica” em letras pretas, simples e quadradas. Nunca tinha ouvido falar daquela linha, do ateliê de alta costura Maison Martin Margiela. O texto promocional dizia que a fragrância, Beach Walk, evocava uma caminhada à beira-mar, com suas notas de ar salgado, leite de coco e tangerina, o que pra mim era muita coisa para alcançar em apenas um cheiro passageiro. Mesmo assim peguei o perfume e borrifei um pouco nos pulsos.

Passei o restante da tarde com os pulsos grudados no rosto, como uma etiqueta do tipo raspe e cheire, só que a etiqueta era eu. Era o perfume menos perfumado que eu já usara, e soube na mesma hora que deveria tê-lo e usá-lo e ser meu melhor eu raspe e cheire todo dia.

Quando eu era jovem, perfume tinha a ver com transformação. Mas nas semanas seguintes ao meu procedimento, aprendi a valorizar a capacidade de uma fragrância nos transportar. Quando eu o passava pelas clavículas a cada manhã, meu novo perfume me ajudava tanto a lembrar como a esquecer, a me sentir com menos medo. A queimadura se fora, cicatrizando lentamente, e em seu lugar estavam os sorrisos soltos trazidos pelas lembranças dos meus dias mais caros. Como quando meu pai jogava minhas irmãs e eu nas ondas do mar, enquanto minha mãe e meus irmãos assistiam da areia; o sentimento de admiração ao ficar de pé, um pontinho humano, diante de um nascer do sol no Pacífico na aurora; o anoitecer de uma tarde quase perfeita passada de mãos dadas pela primeira vez com um novo alguém.

Parece natural, agora, que uma fragrância assim acabaria me encontrando, após 32 anos vagueando, e seria um aroma almiscarado como uma brincadeira nas dunas, como pele de verão queimada de sol antes do banho, meu tipo favorito. Mais ou menos um mês depois daquele momento de serendipidade na loja, encontrei por acaso um ex-namorado. Começamos a falar sobre perfumes.

– Não consigo sentir – disse ele, enquanto eu levantava o pulso até seu nariz.

Mas eu conseguia. Sorri. Afinal, não era para ele, e na minha mente eu já estava na areia, a centenas de quilômetros dali.

Por Katherine Laidlaw, do The Globe and Mail

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