Talvez quando criança não detestasse tanto o carnaval, ou, pelo menos, não sabia que detestava. A lista do que abominava cresceria muito e, no topo, estariam o barulho, a multidão, as músicas de carnaval, as danças de carnaval e o calor da época do carnaval. Naquele tempo, porém, tinha oito8 anos e só estava começando lentamente a detestar coisas. O carnaval não estava entre elas. Ainda bem, porque foi neste momento que a avó a pegou pela mão e, na cidade pequena das férias, disse:

– Vou te levar para ver o carnaval.

Lá foi ela, de braços dados com a avó. Atravessaram a cidade, porque o carnaval acontecia em um fim de mundo. O prefeito não gostava de carnaval e tinha banido a festa da sua vizinhança. Não importava. Onde estivesse o carnaval, estaria a avó, que, na falta de outra companhia, carregou a neta, que não parecia muito animada, mas não teve opção. Ela se arrumou como nunca. Salto alto, bijuterias, laquê. Perfumou-se. Uma rosa no cabelo era a fantasia. A menina enfiou no pescoço colares de havaianas e estava pronta.

Levou serpentinas que ia soltando pelo caminho.

Ver o carnaval significa exatamente isso: ver o carnaval. Nada mais, além, claro, da serpentina que era o mais próximo de “brincar o carnaval”.

Sentaram-se nas arquibancadas. As escolas da cidade iam desfilar. Foi o momento em que a avó se transformou na pessoa mais feliz do mundo. De repente, tinha 20 anos e já não era mais a avó que levava a neta e, sim, uma jovem louca para entrar na avenida. E foi o que fez, para deslumbre e assombro da menina, que viu a avó descer os degraus e se misturar à folia por um tempo breve. A mágica durou uns dez eternos minutos.

Quando subiu, era de novo a avó, tentando equilibrar no cabelo a flor quase perdida na avenida… Ela sabia que a mágica não duraria para sempre e que a casa a esperava com o marido emburrado e as roupas para lavar. Mas “ver o carnaval” era a porção de mágica que ela precisava para seguir em frente.

– Vamos, temos que voltar antes de anoitecer.

Seguiram juntas de mãos dadas, soltando o resto da serpentina.

Se mil vezes a avó a chamasse, mil vezes ela iria. Só para ver, não o carnaval, mas a mágica de ver a avó aos 20 anos.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.@rdeditorial

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.