Era véspera de Natal na pequena cidade de Minas. Não havia grandes vitrines decoradas nem ornamentos de luxo nas ruas, mas, acreditem ou não, o Natal também acontecia naquela pequena cidade de Minas.

Como em todos os lugares do mundo, as famílias enchiam as padarias e os supermercados para comprar o que se tornaria a ceia. Cena comum eram as pessoas andando nas ruas com pacotes, panetones, arranjos de flores – até mesmo naquela pequena cidade, que seguia à risca o ritual da festa. Sabiam para onde iam porque pertenciam a algum grupo; o que levavam nas mãos tinha roteiro certo em alguma mesa.

Bem… nem todos.

A senhora na esquina com um pacote nas mãos apenas obedecia ao que parecia ser um ritual, mas havia uma diferença. Ela não sabia para onde ia nem o que faria com o pacote. Sequer adivinhava o que havia dentro do embrulho, que parecia aqueles que embalavam salgadinhos. Ela mesma havia comprado minutos antes, mas esqueceu o propósito, assim como não conseguia encontrar dentro dela um motivo razoável para estar ali na esquina sem rumo: para onde iria? Virar à direita e subir a rua da igreja? Ou à esquerda e se perder no parque? Em frente, subiria toda a avenida e no sem fim depois do último sinal talvez fosse a saída da pequena cidade e o começo da estrada.

Como não sabia para onde ir, continuou ali na esquina com o pacote nas mãos.

Depois de quase uma hora observando os que iam e vinham com algum propósito, certa de que seus pacotes e passos teriam um rumo, ela percebeu, em um surto de lucidez, que seu pacote não tinha destino – não havia para onde levar o que havia comprado porque não havia ninguém à espera dela em lugar algum.

Então começou a andar como se a cidade fosse um labirinto cheio de ruas que davam para o nada; ficou ali o dia inteiro e a noite também. A ceia foi na calçada, sozinha. Desembrulhou o pacote e viu que eram realmente salgadinhos. Agradeceu a fome desesperada que a fez comer tudo.

Pelo menos tinha fome, o que era uma vitória na solidão.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.