Foi a menina quem teve a ideia: fazer uma festa surpresa para o pai. O desejo oculto talvez fosse o de comer os pastéis de queijo da Rua Santa Clara – os melhores do universo, bem crocantes, que a ela só chegavam nos aniversários. Foram semanas de preparação porque haveria ainda outros salgados e também a torta de chocolate. Quantas vezes a menina recriou a cena do pai chegando do trabalho feliz e pronto para devorar tudo que espalhariam na mesa – ao lado dela, claro.

No dia do aniversário, a mãe a levou para Copacabana a fim de buscar os pastéis e todo o restante. O refrigerante já estava gelando. Nossa, vai ser incrível, pensava. Não tinha dormido direito tamanha a ansiedade, e a escola pela manhã passou arrastada.

Por fim, arrumou com capricho a mesa da festa surpresa.

O irmão era muito pequeno e não participaria, porque o pai chegava sempre mais tarde quando o menino já estava na cama. Eufórica, teria o pai e a festa só para ela, cenário perfeito, alegria garantida.

Mas foi neste dia que aprendeu a não se alegrar por antecipação.

Quando o pai chegou do trabalho, avistou a mesa decorada obviamente em referência ao aniversário. Alguns balões coloridos na parede completavam o cenário. A menina radiante pulava, esperando que o pai radiasse igualmente.

Só que ele deu um sorriso morno e disse:

– Tô cansado, com dor de cabeça.

A mãe não disse nada. Não se sabe se ela percebeu a frustração no rosto da filha e fingiu que estava tudo bem. Apenas sentou-se no sofá ao lado do pai da menina e lhe ofereceu o ombro.

A menina tentou manter o silêncio o máximo que pôde.

Ficou sentada olhando a mesa, os pastéis, os salgados e a torta que acenavam adeus. Não ousou se mexer nem perguntar qual seria o destino daquela comida linda.

Até a hora em que resolveu falar:

– A gente não vai comer? Pai, é seu aniversário.

A pergunta ficou no ar um tempo, como se a interrogação fosse uma bola cruzando um campo em câmera lenta. Do outro lado, ninguém para segurar o lance, nenhuma resposta. O vazio. Os olhos da menina foram se enchendo d’água com o desprezo do pai pela alegria dela. Quando ele respondeu abruptamente estou cansado, agora não, ela não aguentou. Não teve coragem de pegar um pastel porque já tinha perdido a vontade.

Foi correndo para o quarto esconder o choro. Apagou a luz. Naquela noite, só queria afundar o corpo e a alma no travesseiro. Feliz do irmão que não criava festas.

Demoraria muito a aprender a nunca esperar nada de ninguém. Dos homens, o delicado essencial.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.