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Publicado em: 27 de setembro de 2020

A excursão sem nenhum sentido

Já no início ela pressentiu que a viagem tinha sido um erro.

Imagem: vadimguzhva/iStock

Estavam saindo para um passeio a pé pela parte mais bonita da cidade histórica, o que, claro, seria muito mais interessante fazer de forma andarilha do que dentro de um ônibus. Foi então que o sujeito, sentado no último banco ao lado da mulher silente, berrou: “Se eu gostasse de andar a pé não teria três carros.” Naquele momento, a pedrinha caiu na fonte e fez o barulhinho-pergunta: o que estou fazendo aqui?

Ela já havia pressentido que a viagem tinha sido um erro – juntar-se a um grupo de pessoas que nunca viu na vida e que talvez só tivessem em comum o interesse pelos países que iriam conhecer de ônibus. Tentava se concentrar na estrada, na aventura de cruzar as fronteiras, na beleza da diferença das paisagens e no encontro com as diversas línguas. Ela poderia ter experimentado tudo isso fora de uma excursão! A combinação muitas+pessoas+estranhas+juntas era algo de que definitivamente ela não gostava.

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta.

A frase do homem sentado ao lado da mulher silente criou no ônibus um mal-estar. A moça que conduzia a excursão tentou suavizar. Disse que não havia outro modo de conhecer aquela parte da cidade a não ser a pé. Depois de algum tempo, o casal se levantou ao comando do homem, que se arrastou de tênis-branco-impecável, óculos escuros, bermuda e mãos no bolso. A mulher do lado, como se fosse uma bolsa ou uma sacola ou algum outro inanimado, não disse nenhuma palavra, sequer um gesto de rosto. Parecia movida por controle-remoto.

A frase do homem continuou ecoando.

Era uma espécie de frase-bomba que despertou a certeza de que aquela excursão tinha sido um equívoco. Os demais não se importaram com o mau humor do homem, nem acharam tão inadequado o comentário. Ao menos não esboçaram grandes reações.

Ela, porém, não conseguiria prosseguir. Desceu do ônibus, pediu sua mala. O motorista não entendeu nada. Pegou suas coisas e saiu andando no sentido oposto ao grupo. A partir dali se dispersaria. Faria uma excursão a seu modo, sozinha, encontrando estranhos com quem só iria interagir se realmente quisesse.

 “Se eu gostasse de andar a pé não teria três carros.”

A frase continuou ecoando e durante muito tempo ela esmiuçaria cada palavra para justificar o acerto que foi ter fugido daquele ônibus.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Ouça o episódio mais novo do podcast da Claudia Nina: O presente inesperado.

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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