Teve o dia de achar a sopa aguada. A torta de atum que ele adorava virou de repente uma maçaroca. As gavetas faziam nos seus ouvidos um barulho insuportável, o sabonete líquido para as mãos não era de erva-doce e as toalhas não eram brancas como as dos hotéis. As exigências se multiplicavam, e ele achava que ela ainda queria agradá-lo. Tolo. Ela não queria ter o trabalho de expulsá-lo.

Uma noite, chegou exausta do escritório. A cabeça quente, as mãos quentes, coração quente, ela inteira parecia ferver, tinha febre. Quando abriu a porta, lá estava ele, sentado na poltrona bege, de roupão, à espera dela para o jantar e, por certo, mais uma lista de reclamações já estava pronta para ser despejada em cima dela. O cansaço, o esforço do trabalho diário, as conquistas, enfim, tudo o que ela orgulhosamente trazia nas costas não significava nada. Ele parecia espumar de uma raiva ou desprezo ou várias coisas juntas e sem nome. Ela não suportava mais ouvir sua voz, nem sequer ver o contorno das suas mãos que antes achava tão lindas. Tinha calma, apesar da exaustão. O trabalho de expulsá-lo era algo ainda mais imenso.

Até que, naquela noite, ele se sentou diante da mesa posta. Era ela quem tinha que colocar a mesa do jantar, mesmo ele estando em casa a maior parte do dia.

Porque ela havia aceitado o pacto com o demônio não sabia.

Antes de começar as reclamações em relação à comida, ele olhou para cima e descobriu, dentro do lustre, o que deveria ser uma família de mosquitos. Ele não se aguentou de fúria e flechou contra ela uma dezena de ordenações para que o lustre fosse limpo antes da próxima refeição porque ele não suportava a visão daquilo – nem mais um dia, avisou.

Nem mais um dia.

A frase soou como um alerta. Sim, nem mais um dia. O que ela, afinal, estava esperando? Planejou o fim de tudo com calma.

Foi dormir mais cedo. Ele desabou logo depois. No dia seguinte bem cedo, quando ele saiu para a academia de ginástica, ela trancou a porta e providenciou a troca das chaves. Para aquela casa ele não voltava. Ligou e avisou sobre a decisão. Ele não entendeu, por mais que ela, ainda pacientemente, tentasse explicar.

E assim é que casamentos acabam: porque um dia uma família de mosquitos revolveu morar dentro do lustre em cima da mesa do jantar…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.