Andavam apressadas, mãe e filha, porque já era tarde e atravessavam uma rua muito escura de frio e chuva fina. Ruas vazias deixam a noite mais escura, a mãe sabia disso. Que erro imperdoável a travessia àquela hora.

Seguiram em frente, uma abraçada à outra, cabeças pra baixo, só viam o chão e mais nada – fizeram uma linha imaginária e avançaram.

Mas.

No meio do caminho, no chão frio e escuro.

Naquela noite deserta.

Foram obrigadas a parar. Não porque alguém as interrompesse. Não porque fossem sobressaltadas por algum susto – nada disso.

A mãe parou de repente quando ouviu uma voz dizendo:

– Qualquer coisa.

A frase vinha de uma moça sentada na calçada.

Ela respondia a uma senhora que passava e lhe perguntava, provavelmente, do que ela precisava. Porque a moça, ela mesma não pedia nada. Não esmolava, não esticava os braços em busca de moedas. Apenas respondia:

– Qualquer coisa.

Depois de ouvir a frase, a mãe que passava parou. Virou os olhos para a moça sentada na calçada, que devia estar ainda mais gelada do que o chão sob seus pés bem calçados de bota.

Então, ela resolveu fazer alguma coisa – não iria conseguir chegar em casa sem que tirasse de si um pedaço, qualquer pedaço, para estender à moça.

Abriu a carteira, tirou uma nota que poderia ser de R$ 20.

Mas era de R$ 50.

A filha viu que era de R$ 50 e arregalou os olhos.

– Vai dar isso tudo? – perguntou.

– Vou – respondeu a mãe.

E pediu que a filha fosse até a moça da calçada e entregasse a nota.

Só depois percebeu que havia dado R$ 50 e não R$ 20.

Ficou feliz com a troca.

Aquele tinha sido um dia tão raro, pensou.

– A felicidade precisa ser espalhada, como no jogo do anel, um passando para o outro… – filosofou a mãe.

Naquela noite escura, o anel, na falta de outro símbolo, tinha sido a nota de R$ 50.

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Esta história realmente surgiu no meio de uma noite escura quando eu e minha filha vimos duas moças sentadas na calçada gelada. Na verdade, elas já estavam ali havia um tempo. Foi preciso ouvir a voz dizendo “qualquer coisa” para que eu percebesse. A gente passa sempre correndo com a desculpa do frio, da chuva, da escuridão, guardando a nossa felicidade como em um cofre com medo de alguém roubar… Não é verdade?

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.