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Publicado em: 4 de outubro de 2020

A inevitável explosão do copo quebrado

Naquele momento, ela não percebia que quem havia desenhado o quadrado que a aprisionava fora ele.

Imagem: Voyagerix/iStock

Quanto mais frio lá fora, pior ficavam as coisas dentro de casa. Ela se fechava porque não tinha nada para fazer além do mercado. Não tinha amigos nem colegas de trabalho. Restringia suas palavras ao mínimo, a ponto de perder o hábito de trocar ideias. Era como se ela tivesse desenhado um quadrado para ficar presa lá dentro. As linhas do quadrado ficavam cada vez mais próximas, diminuindo o espaço. Naquele momento, ela não percebia que quem havia desenhado o quadrado fora ele.

Acostumada ao silêncio e aos poucos movimentos, a vida ficou insuportável –  para ambos. Para ela, porque viver dentro de um quadrado era sufocante; para ele, porque viver com alguém aprisionado é também estar preso de alguma forma.

O tempo passava e a raiva dele aumentava.

Ele parecia ter um ódio profundo, gutural, anterior à própria existência dela. Ela não sabia o que fazia com o ódio, não tinha força para reagir dentro da caixa onde vivia silenciosa. Não sabia o que fizera para merecer tanta raiva. Ainda não sabia que o erro maior foi ter permitido o confinamento naquelas linhas invisíveis do quadrado que só eles conseguiam ver.

Ainda bem que as portas eram grossas e ninguém ouvia os maus-tratos verbais. Um dia, arrumando as panelas depois do almoço, acocorada no armário da cozinha, ela chorou muito, após ele a ter acusado de alguma coisa de que ela nem se lembrava – eram tantas as acusações, ela sempre errada.

Leia outros contos de Claudia Nina
na coluna Histórias que a vida conta.

Até que um dia, no meio de uma tormenta, ela, que não tinha palavra que significasse, pegou o copo grande de cristal, um dos últimos representantes do conjunto que a mãe dele tinha dado de presente – aquele mesmo, tinha que ser.

Levou o copo bem para cima, para ganhar altura, e com o resto de força que ainda tinha espatifou o copo diante do homem que só olhava. Ela não pensou em nada. Só no movimento brusco e libertador.

Ele ficou em silêncio após a explosão.

Assistiu à morte do cristal e depois pegou uma vassoura para catar os estilhaços. Ficou ali, algumas horas, varrendo e varrendo até anoitecer.

Ela não sabia o que fazer da liberdade. Poderia aproveitar que o homem estava concentrado em limpar a grosseria que ela fez e sumir, desfazer as linhas do quadrado.

Mas o gesto manso do homem, de quem ela esperava um ódio maior diante da sua rebeldia, fez com que ela quisesse se manter no quadrado. E voltou, silenciosa, para o quadrado que ele havia desenhado para ela.

Era um homem bom, afinal. Só tinha ódio dela, mais nada.

POR CLAUDIA NINA[email protected]

Ouça o episódio mais novo do podcast da Claudia Nina: O presente inesperado.

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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