No país que não era dela, não poderia imaginar que a dor não era uma língua universal. Não estava preparada para muitas verdades. Um dia, munida de uma ignorância absurda da vida e das incompreensões humanas, muito jovem ainda, coitada, ela foi para a biblioteca da faculdade, onde de vez em quando fingia não ser uma isolada no mundo, estando ao lado de outros isolados naquele país ao qual, diga-se de passagem, ela não fazia a menor questão de pertencer. Aliás, “despertencer” era seu maior triunfo, embora a esta liberdade só se acostumaria com o tempo.

Estava concentrada em uma leitura em inglês, alheia ao burburinho miúdo, quase inexistente, ao redor. Era a língua inatingível, o holandês, que ela preferia pensar que não passava do barulho de um inseto chato.

Até que, de tão imersa no silêncio que ela mesma produzia, não sentiu a aproximação de um inseto real – a abelha. Estava quieta, deitada sobre a mesa de leitura, talvez descansando suas asas. E ficaria assim por toda a eternidade, não fosse ela de repente esticar as mãos e tocar o corpo do bicho. Sem olhar o que fazia, pensando ser algum pequeno objeto fora de lugar, apertou a abelha com a ponta dos dedos e assinou com a digital a própria sentença: a dor infalível.

Era a primeira vez na sua história que sentia o ferrão de uma abelha.

E quis o destino que fosse ali, naquele país que não era dela, experimentar a amargura.

A reação foi imediata: um grito imenso de dor – a mesma que ela pensou ser universal, mas que não era.

Os vizinhos de silêncio olharam todos assustados e simularam uma vontade de ajudar. Chegaram perto, mas não o suficiente para fazer algo que valesse a pena.

Ela percebeu o que tinha acontecido quando identificou a abelha destruída na mesa e tentou tirar o ferrão; a dor era lancinante, o choro compulsivo. Não sabia como administrar com suavidade a sensação de dedo martelado.

Depois de segundos, cada um se devolveu para seus cantos.

Ela ficou, isolada na dor infinita. Ouviu quando uma das moças da biblioteca falou baixo uma frase que só fez sentido porque dentro havia uma palavra parecida com o que ela entendia por “dramático”. Logo percebeu que estavam julgando a sua reação à dor, que ela acreditava ser universal. Não, no país que não era dela, nada era universal. Muito menos a dor.

Saiu da biblioteca carregando o dedo e engolindo o choro.

Deixou na sala o ódio por aquela mulher que não lhe fora solidária e também por toda a raça de isolados daquele maldito país.

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Este caso aparentemente banal – ser picada por uma abelha – teve para mim uma significação especial. Talvez, só agora eu perceba, a dor que eu senti estando muito longe do meu país foi uma reação ao silêncio, ao isolamento e também ao descaso que o estrangeiro sente quando não consegue compartilhar as suas dores, principalmente a dor mais cruel – a saudade.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.