O colégio era daqueles mundos, dentro dos quais facilmente ela se perderia. Mas nunca se perdeu ali – suas perdições viriam depois e de outras formas. E foi naquele mundo, com centenas e centenas de alunos, que uma vez houve um concurso de desenho. A menina de 8 anos ficou animada assim que noticiaram. Logo depois desanimou. Não teria a menor chance de vencer concorrendo com tanta gente.

Nunca descobriu o que acendeu nela a esperança; não era de acreditar na sorte nem no sucesso. Muito menos acreditava que pudesse fazer um desenho vencedor. Contudo, resolveu arriscar o tempo. A esperança era pequena, quase um esqueletinho, mas era uma esperança. Passou a madrugada desenhando. Era de noite que a vontade de desenhar acordava nela as maiores inspirações. À noite, sua esperança voava mais alto, nem parecia tão frágil. No dia certo, o desenho estava pronto. Era um camafeu. Mais tarde, ela mesma estranharia a sua escolha – por que a opção por um objeto tão antigo?

Entregou e aguardou ansiosa o dia da decisão final.

E não foi que o esqueletinho voara no endereço certo? De fato, ela ganhou, embora não o primeiro lugar. Levou uma menção honrosa, o que, no contexto de colégio-mundo, era uma grande vitória. Foi mais ou menos isso que a professora falou, e ela então acreditou. Só que, ao avisar em casa, ofegante, da sua “vitória”, ninguém festejou. Deram mãe e pai um meio sorriso e logo depois cada um voltou às suas tarefas. Ela dizia: “Preciso que me levem para pegar o prêmio.”

Pegar o prêmio não era uma logística fácil dentro daquela casa. Isso significava ir do Jardim Botânico até Ipanema – o trajeto era considerado longe e “fora de mão”. A expressão era muito usada quando não queriam levar a menina em algum lugar.

Assim o tempo passou.

O prêmio de menção honrosa ficou meses à espera. Até que um dia, fosse por pena ou por não aguentarem a insistência da menina, os pais finalmente foram buscar o prêmio em uma loja de brinquedos em Ipanema. Só que todos os outros vencedores de menção honrosa, que foram muitos, já tinham ido buscar seus prêmios. O que sobrou foi um jogo de varetas.

Com o prêmio na mão e a cabeça baixa, a menina levou sua menção para casa. Até que brincou bastante com o jogo de varetas. Guardou por muito tempo o brinquedo. Mas ficou a marca. A marca do tempo em que o prêmio real (qual teria sido ele?) ficou mofando na loja à espera. A marca do descaso dos pais pelo mínimo, mas honroso, talento dela.

POR CLAUDIA NINA claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

 

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.