A menina não suspeitava que correria perigo de vida caso aceitasse a carona e entrasse naquele carro branco que todas as manhãs cruzava seu caminho, rodas lentas, só para acompanhar o passo dela. Era ainda roliça em seus oito anos, as pernas não tinham muito joelho, a barriga e as bochechas não adivinhavam que sumiriam ao longo dos anos e dariam forma a uma moça tão alta como uma estante. Isto é, se ela sobrevivesse ao perigo.

O homem do carro branco, como se cavalgasse um desfile insistente, fazia sempre o mesmo ritual, perguntando à menina se ela queria carona para a escola. Ela negava, era um estranho. O homem não desistia.

 – Ei, quer carona?

Até que um dia a menina, talvez por curiosidade diante da insistência ou por pura preguiça de seguir a pé o caminho cansado, entrou no carro, aceitou a carona e o trote daquele homem que conduzia o cavalo maquinal e repetitivo.

Assim que ela entrou e fechou a porta, o homem pôs a mão imensa e vermelha na perna dela. A menina estremeceu e teve nojo profundo das unhas pequenas e pontiagudas que nasciam daquela mão. As unhas disseram:

– Menina, como você é bobinha. Onde já se viu entrar no carro de um estranho?

Depois de dois segundos de pânico, a melhor resposta veio como uma arma, um canivete, para cortar as unhas e até as mãos do indecente.

– Mas você não é um estranho. Já falei sobre você e seu carro para muita gente!

A mão morreu de repente e caiu no chão, imprestável.

As unhas também não teriam serventia naquele momento – que o homem tratasse de as recolher. A cara de vencedor, garanhão, dentro do seu cavalo branco, perdeu o sentido. Ele secou a fala e seguiu para a escola, sem nenhuma parada, nenhuma piada. Silêncio.

Como a menina sabia que estava na direção da escola, respirou aliviada tão logo viu os primeiros colegas surgirem ao redor. Quando chegaram, ele passou a mão por trás da menina e abriu a porta do carro. Assim que ela fincou os dois pés na calçada, liberta da ameaça, pode ouvi-lo reclamar:

– Mais gorda do eu que pensava, uma gorda faladeira!

A menina de pernas redondas, com joelhos que se batiam quando andava, sentiu uma força incrível. Tinha vencido com o poder do próprio corpo e também com a palavra-punhal, que enjaulou a besta na sua jaula mesmo.

A menina roliça ensinaria muitas outras coisas à mulher…

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Semana passada, propus um desafio no meu Instagram (claudianina_writer): me escrevam uma história real em dois parágrafos para eu transformá-la em uma “história que a vida conta”. A primeira a responder foi a querida Cris Lírica, que me emprestou o seu relato. É claro que, como toda ficção, colher do mágico, entortei os fatos. A brincadeira vale como exercício divertido para quem está começando na palavra literária. Valeu, Cris!

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.