Era bem pequena quando os pais morreram e foi morar com um tio, o único que sobrou na família. Arrumou as pequenas trouxas. Não tinha consciência da falta absurda que fariam os pais e da saudade que teria da vida antes da partida deles, talvez porque fosse muito criança ou porque era mesmo de sua natureza saber viver do jeito que dava.

O tio era um homem simples e generoso. Arrumava o lanche das manhãs, fruta cortada em um potinho, café com leite. Levava a menina a todos os cantos, escola, parques e passeios, não a deixava se sentir sozinha. Ajudava nos deveres. Era mesmo um segundo pai. Ela estava muito feliz. Só havia naquela casa de dois mínimos quartos um mistério que, à medida que a garota foi crescendo, tornou-se cada vez mais incompreensível: não tinha espelhos na casa, à exceção de um pequeno círculo do tamanho de um pires que ficava no canto ao lado do chuveiro.

A menina crescia sem saber como.

Ela tentou pedir várias vezes. A princípio achava que seria fácil. Um espelho não era uma joia nem um carro. Mas as negativas eram tão bruscas que ela decidiu nunca mais pedir: “Eu não preciso de espelho”, ele dizia.

Ao homem não ocorria a ideia de que nem tudo dentro de uma casa compartilhada teria de servir somente a ele. A menina achou estúpida a resposta, mas, como realmente a casa era dele e ela, na verdade, era uma refugiada do destino, achou que não teria nenhum argumento que o fizesse comprar um espelho maior para que ela pudesse se ver de corpo inteiro. Aceitou. E continuou crescendo sem saber como – acabava de se arrumar nos espelhos que encontrava pelo caminho. Tinha dias que saía com a calcinha aparecendo ou com a blusa do lado avesso. Coisas sem importância diante de tanta bondade daquele tio amigo que a acolheu.

Nunca na existência dos dois naquela casa houve um espelho maior.

E nunca mais tocaram no assunto – era um ponto cheio de nervos, a menina, depois moça, não ousou voltar a tocar ali. Cresceu sem saber como, mas cresceu.

No avião, quando abriu a bolsa de maquiagem e viu o espelho do tamanho de um pires, a lembrança do tio voltou com força. Que homem generoso, pensou. Permitiu que ela crescesse sem saber como e isso de alguma forma deve ter sido bom.

Era mesmo de sua natureza saber viver do jeito que dava. Saiu para seu compromisso naquela cidade, não sem antes terminar de se arrumar nos espelhos que encontrou pelo caminho dos corredores do aeroporto.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.