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Publicado em: 20 de junho de 2021

A menina, o passarinho e o despertador na varanda

Por mais que tentassem fazer nascer dentro dela alguma comiseração ou poesia, de nada adiantava.

Imagem: DebraCarrPhotography/iStock

Do nada ele resolveu surgir na varanda e anunciar sua presença todas as manhãs. Um passarinho cantante e colorido. Decidiu-se por uma varanda, entre tantas. Poderia cantar em qualquer uma das oito varandas do prédio, mas, por algum motivo que talvez nem ele soubesse, era para aquela varanda que ele retornava todas as manhãs bem cedo. O que ele não poderia supor, em seu alegre passeio, era que, no apartamento da varanda escolhida, morava uma menina nada cantante. Tinha um mau humor incurável.

Assim que o passarinho anunciava sua chegada, a menina acordava porque tinha o sono leve de pluma. Quando percebia que tinha sido a cantoria do visitante que funcionava como alarme, ela avançava feito bicho para a varanda com armas na mão: os primeiros sapatos que via pela frente. E, sem nenhum tipo de amor ou piedade, sem se sentir minimamente envolvida pela música que o pequeno intruso trazia, a menina tacava-lhe os sapatos, fazendo com que o passarinho voasse para longe. Antes, porém, emudecia.

Esse mesmo gesto se repetiu por várias manhãs.

Não houve um só dia em que ela despertasse feliz com a presença do passarinho. Ninguém na casa entendia por que tanta fúria. Ela dizia:

– Detesto ser acordada. Esse passarinho me irrita!

Por mais que tentassem fazer nascer dentro da menina alguma comiseração ou poesia, de nada adiantava.

– Um dia eu acerto esse bicho!

De tanto espantar o visitante, houve uma manhã em que ela não foi acordada pelo alarme natural e pôde dormir até a hora que bem entendeu. O passarinho não apareceu. Ela pensou que fosse por um único dia e que depois ele reapareceria com sua música irritante novamente. Os sapatos ficavam ao pé da cama para que o armamento fosse lançado.

Só que ele nunca mais apareceu, e a menina nunca mais foi acordada com música.

Com o tempo, o implacável aconteceu. A menina irritadiça e indócil descobriu que existem outros alarmes para despertá-la para o mundo real. Nem sempre alegres, nem sempre cantantes…

POR CLAUDIA NINA [email protected]

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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