A mãe passou a morar na clínica desde os primeiros sinais, quando começou a se esquecer onde ficava o banheiro e, por extensão, não sabia mais se algum dia existiu. Como era filha única, com um marido difícil, não teve escolha a não ser internar a mãe e cuidar para que fosse bem tratada, que não lhe faltasse o sabonete de erva-doce, o leite integral, a fralda e a sopa. Tudo foi feito da melhor maneira possível.

Fazia as visitas de praxe, todos as semanas, sempre quando o marido estava trabalhando. Ele não suportava que a mulher desse atenção a qualquer outra pessoa no mundo além dele. Talvez por isso não tenham tido filhos. A mulher não insistiu. Secretamente sabia que, tendo filhos, seria mais difícil escapar dele um dia.

Este dia chegaria.

Levava para a mãe tudo que ela precisava e sempre gostava de acrescentar um item – um doce, um saquinho de jujuba, um travesseiro mais confortável. Não queria chegar de mãos vazias e sabia que, mesmo que a memória da mãe esvaísse a cada minuto, o prazer das pequenas coisas ela ainda teria. Debruçar a cabeça confortavelmente antes de dormir seria um prazer garantido até as vésperas da morte. Ela queria que a mãe o tivesse. Não por se sentir culpada – era amor mesmo.

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Teve uma semana em que decidiu levar um edredom e duas mantas de lã. Apertou tudo em duas malas. Quem a visse diria: a mulher está de mudança. O porteiro fez cara de adeus. Havia no ar um cheiro de virada.

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Imagem: Daniel Allan/iStock

Só que até aquele momento nada indicava que algo estava para acontecer. A mulher deixou o jantar adiantado, ainda nas panelas, quando chegasse arrumaria tudo. O marido jamais se prestava para nada além de se sentar e esperar ser servido.

Quando a mulher chegou à clínica com as duas malas, na recepção a moça perguntou:

– Veio de mudança dessa vez?

A pergunta cravou na mulher uma flecha de luz: naquele momento, teve um surto de verdade súbita.

– Sim.

A resposta veio sem que ela refletisse no tamanho da palavra tão pequena, mas imensa de significado. A partir daquele instante, ela recusaria a vida pregressa, o marido, a casa, o jantar na panela, as panelas, a cozinha e todo o resto.

Sim.

Era apenas isso: sim.

Ela queria ficar com a mãe, amor eterno, amiga de tanta vida, que, lá no passado, a alertou quanto ao casamento. Não se case com este moço que vai te fazer sofrer. A mulher ouviu, mas queria, não propriamente o homem, mas o casamento. Foi para a casa que o homem montou, pisou no chão que ele comprou e se sentiu a mais cuidada de todas as mulheres do mundo.

Até que, quando a mãe adoeceu, a parte podre do homem egoísta virou inteiramente para fora e ele se tornou todo um avesso.

Se a mulher tivesse pensando antes, não tomaria a decisão.

As malas falaram por ela, agiram por ela, mesmo carregando presentes para a mãe e não seus pertences. Ela daria um jeito.

O jantar naquele primeiro dia de mudança era sopa de ervilha.

Tomaram as duas a sopa bem quente, enroladas nas mantas.

A velhice da mulher havia chegado antes do tempo. Ela antecipou o futuro de solidão. Aquele homem em breve morreria, nem faria falta. Ah, mas talvez as panelas. Estas sim, eram ótimas.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.