Aquele senhor que todos na família davam como perdido. Não sabia mais o caminho do quarto para o banheiro e houve até uma vez em que optou por fazer suas necessidades atrás do criado mudo. Mas foi só uma vez, talvez não estivesse tão disperso assim, quem sabe um remedinho, os parentes oscilavam entre a descrença absoluta e a esperança. Quem sabe.

O que atordoava os esperançosos não era o esquecimento do mapa da casa, mas sim o buraco que o senhor insistia em ver crescer no teto do seu quarto, bem em cima de sua cama. O avanço no reboco crescia, e ele não se importava, pelo contrário. Parecia escavar com suas próprias mãos porque o buraco aumentava toda a semana.

“Vamos mandar consertar isso, aí”, diziam os que se importavam.

De jeito algum. Senhor Almeida entrava em pânico só de pensar que o buraco seria fechado. Por alguma misteriosa razão, ele queria que tudo continuasse como estava. Nada de reformas. Mesmo que o reboco caísse sobre sua cama, em cima de sua cabeça e e ele até engolisse pedaços de teto quando dormisse.

“Deixem tudo como está”, ele insistia.

As semanas se passavam e o reboco aumentava. Senhor Almeida seguia a morna rotina sem alteração e ninguém imaginava o que estava por acontecer.

Os parentes esperançosos e os preocupados se dividiam em visitas de obrigação. Iam embora depois de constatarem que, apesar de perdido e teimoso, Almeida resistia.

Um dia, porém, aconteceu o mistério.

O reboco amanheceu imenso, parecia uma cratera, por onde passaria uma pessoa inteira. E o senhor não estava mais lá. Quer dizer, estava sim a carcaça, mas dentro dele não morava mais ninguém. Morreu.

Nem os preocupados nem os esperançosos perceberam, mas o senhor Almeida cavava mentalmente uma passagem secreta… Não era um buraco simplesmente, mas uma redenção. Ainda não se tem notícia para onde.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.