Quando pegou emprestado os óculos da mulher e, descuidado, pisou em cima, deixando para ela o embaçado e o prejuízo, não se lembrou que fosse objeto de importância.

Com eles, a mulher fazia a pouca leitura de seu mundinho, que não era lá grandes coisas, mas era dela, afinal; suas costuras, o bordado, os tecidos que ela cortava para fazer cortinas e almofadas. Ele não se lembrou que tinham importância. Nem que um dia ela falou: “Sem estes óculos, sou ninguém.”

– Deixa de ser dramática, só uns óculos de nada.

O marido não se importava se ela fosse ninguém.

Ela o perdoava, apesar de triste.

O que ele não sabia era que, a cada perdão, ela afundava um pouco mais a cabeça no chão, como se fosse um alfinete. Mesmo desaparecendo a cada dia, aquela mulher perdoava porque tinha muito amor pelo homem descuidado.

Um dia, bebendo com amigos, ele se esqueceu de voltar para a casa. Ficou até de madrugada na rua, sem imaginar que a mulher, aquela que costurava no embaçado depois de ter os óculos pisoteados, ficaria preocupada, sem dormir, às claras, imaginando o horror que seria viver sem aquele homem.

Ele voltou de manhã, irritado com a preocupação da mulher-alfinete.

– Que dramática!

E foi tomar banho sem olhar para ela.

O perdão não pediu. Mas ela o deu mesmo assim.

Perdoaria o homem até o fim, mesmo quando não sobrasse mais nada dela na superfície. E assim viveram, entre os descuidos do homem e os perdões da mulher.

Até que o dia fatal chegou, quando todos os descuidos a socaram de vez no assoalho, nem mais a cabeça de fora – morreu enterrada a senhora dos mil perdões.

O homem não entendeu como a mulher desaparecia do mundo tão de repente. Não tinha percebido que, ao longo dos anos, ela foi afundando cada vez mais – e a terra não devolve o que engole. Quando resolveu sentir falta daquela “dramática” mulher, já era tarde demais.

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A história é a mistura de situações reais e muito comuns: quantas vezes um relacionamento é a junção daquele que se descuida com aquele que perdoa sempre?

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.