Já estava há algum tempo na cidade e, desde que chegou, achou estranhas as janelas grandes, fechadas pelo frio, mas absolutamente devassáveis pela transparência. Em alguns casos, uma cortina finíssima fingia que protegia a privacidade das casas.

Quando ela andava pela ciclovia, percorrendo os quarteirões idênticos, veria também, se quisesse, o que as pessoas não tentavam esconder. Via os que pareciam retornar da cozinha com canecas, outros que se sentavam perto de uma luz para ler, crianças na sala de jantar brincando no tapete, os brinquedos espalhados pela casa… Eram cenas domésticas de uma singeleza tão grande que ela poderia jurar que aquela não era uma cidade pulsante e internacional, e sim uma espécie de aglomerado camponês.

O desconforto ao qual teve que se habituar era: sua casa também era assim, de grandes janelas devassadas. Uma cortina grossa tapava a janela da frente, mas a lateral, que dava para a cozinha, não. Tinha apenas a fina cortina mentirosa. Imaginou que, como na rua as pessoas não enxergavam umas às outras a não ser que fossem já conhecidos, não haveria problema. Ninguém via ninguém. Ela dentro de casa mal protegida não seria algo com que se preocupar, mesmo estando em um país-aquário, de uma transparência perturbadora.

Até que um dia, saiu do banheiro só de calça jeans, o peito nu, ia buscar a blusa no quarto – teria que obviamente passar pela janela da cozinha, a que mal fingia proteção. Ela quase sempre fazia isso sem maiores problemas e nunca poderia imaginar que haveria alguém no deserto de folhagem que rodeava a casa; tinha até um filete de lago com alguns patos.

Mas naquela tarde de verão, havia.

Quando saiu do quarto de peito aberto, totalmente distraída, deu de cara com um rapaz com a cara colada na janela mal protegida pela cortininha. Ele tinha metido a cara justamente na parte mal coberta pelo pano, e os olhos gigantes, como os de um peixe, pareciam entrar dentro do aquário da janela. O susto foi tão grande que ela não conseguiu gritar. Colocou a mão no peito para se esconder da invasão, olhou ao redor para se certificar de que o homem estava só e de que poderia matá-lo com uma vassoura.

Quando ele viu o pavor que desencadeou nela, tratou de sumir como um rato, rastejando pelas folhagens, de cabeça baixa. Ela o acompanhou com os olhos e viu que ele entrou na casa da frente, a porta era seu esconderijo. Pode vê-lo inteiro, o corpo magro e branco, era um daqueles nativos que não a veriam na rua. Mas que hipócritas! Não viam as pessoas na rua, mas eram capazes de devassar transparências alheias.

Sentiu raiva e vontade de sumir. Fechou todas as janelas que nunca mais deixariam vazar sequer um pedaço mínimo do dentro – especialmente do corpo dela. Saiu com mais raiva ainda, esperando que o sentimento mau se desmanchasse um pouco com o vento quando estivesse pedalando para o mercado. Foi comprar queijos.

Era o que salvava aquele país.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.@rdeditorial

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.