Hoje me deu uma vontade de falar com você, vó. A gente sempre conversou o trivial, e eu adorava ouvir sua passagem pelo mundo simples, como a dureza que foi criar oito filhos e perder dois, que foram embora antes de você. Sei que foi quando o primeiro deles morreu que você começou a morrer, mas não quero falar disso agora. Talvez em uma próxima conversa-carta.

Quero falar de quando você se arrumava para sair. Era às vezes uma ida ao mercado, mas você nunca se expunha à rua de qualquer jeito. Sapatos de salto, bijuterias, cabelo impecável, unhas feitas. Aos pés, o cuidado mais especial, porque você nunca andava rasteira – jamais! Era uma questão de honra saber se equilibrar nos saltos. Lembra de quando você me emprestou um verde? Na época eu ainda calçava o mesmo que você, depois eu cresci mais e mais e não puder herdar nenhum dos seus tesouros.

A imagem de você pronta para sair é o retrato mais perfeito de sua figura no mundo para mim, e eu gostaria de ter mantido para sempre esse postal. Mas… a vida tem crueldades. Uma delas foi que você um dia decidiu abandonar seus sapatos de salto para sempre. Eu sei. Fui poucas vezes visitar você na clínica, mas não foi por maldade, e sim porque me doía ver você ali, deslocada no mundo e sem chão. Não conseguíamos mais conversar.

Você substituiu a fala pelo sorriso sem sentido.

Olhava o nada e sorria. Olhava a gente e sorria. Não conseguia distinguir uma pedra de um gato. Foi então que aconteceu: olhei para seus pés e vi os dedos pequenos, gordos e infantis espremidos em chinelos de lã. E aí acabou. Aquela imagem ficou para sempre grudada em cima da outra, a da mulher orgulhosa de seus saltos, pronta para ir ao mercado.

Jamais vou me esquecer da sua voz. É tão lindo isso. Eu não me esqueço da sua voz. Será mais fácil esquecer a cor dos seus olhos do que a sua voz. A forma grave como você dizia “Ô poxa”. O cruel da vida é que eu também não consigo me esquecer dos pés de chinelo de lã, encolhidos, escondidos, temerosos, covardes, silenciosos. Pés que não tinham mais nem saudade nem memória das ruas.

Você não aguentaria ter a consciência de que esta imagem era você. Talvez por isso o esquecimento de quase tudo e o sorriso sem sentido. Eu sei que as palavras nunca ficam no ar sem destino. Um dia o eco do que estou escrevendo agora de algum modo vai chegar até você.

Ah, uma coisa que eu me lembro agora: um dia você resolveu me contar a história da Anne Frank. Eu era muito pequena para entender. E até agora não entendi por que, no meio da nossa conversa trivial, você resolveu me contar aquela história. A vida é mesmo cruel, vó.

Um beijo, saudade.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.