O homem já era velho, mas talvez não soubesse. Também não sabia que o filho que o acompanhava não era mais uma criança e sim um adulto, que por toda a existência viu o pai com uma garrafa de uísque na mão. As únicas vezes em que não o vira bebendo era porque ele estava internado. Naquele momento, os dois iam de trem para Minas. O pai não estava bebendo porque não havia uísque. Por algumas horas, o filho comemorou em silêncio. Quem sabe aquela viagem seria o começo de uma nova fase…

Ainda bem que a comemoração foi em silêncio. 

Se ele tivesse alardeado a breve euforia, teria ainda mais vergonha da cena que se seguiu ao aplauso imaginário.

Não demorou muito e o pai, desesperado com a falta da bebida, começou a dar sinais de que alguma coisa dentro dele entrava em surto. O filho olhava a paisagem na tentativa de fingir que nada estava acontecendo. Quem sabe conseguiriam chegar ao fim do percurso sem que todos os parafusos do pai se soltassem ao mesmo tempo.

O filho percebeu como estava sendo inútil e tola a sua esperança. O pai, velho e imprestável, não teria conserto. Como se para provar, ele começou a atacar as pessoas no trem, gritando que estava sendo ameaçado.

– Seus monstros, sumam daqui, saiam daqui!

E berrava em uma altura enlouquecida.

Não adiantava pensar – este não é meu pai, é um velho maldito – porque aquele velho maldito era seu pai. Triste e despedaçado, o filho abandonou o olhar da paisagem e tomou as providências. Chamou o segurança, explicou que era delirium tremens.

O pai foi levado para uma cabine fechada, amarraram-no a uma cadeira para que não apresentasse perigo aos passageiros. No meio do caminho, desceram. O velho foi levado a um hospital, para mais uma internação. Tudo porque um dia lhe faltou a garrafa.

Na janela do quarto do hospital, o filho olhava o lá-fora da cidade miúda com saudade do trem. Aquela viagem seria o começo de uma nova fase, mas no meio do caminho havia um delírio. Fechou então a cortina e esperou a noite – dali em diante, nenhuma esperança pousaria em suas paisagens.

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As histórias são os anéis daquela brincadeira de criança – fechamos a mão e abrimos um pouquinho para que os anéis ou qualquer outro pequeno objeto caia (ou não) para nós. Sempre tenho as mãos preparadas para novas histórias. Esta quem me trouxe foi meu pai.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.