Dele só tinha uma foto tremida de seus 17 anos. Nada que documentasse um rosto de verdade: como ele estaria hoje? Casado? Perdido? Morto? Tinha o nome completo e isso já era o começo. Ou o fim. Não sabia o que a esperava.

Casamento desfeito, vida revirada, ela queria testar a sua capacidade de soltura. Não tinha filhos nem gatos, seu trabalho era um computador na mão e umas ideias na cabeça. Poderia viver aqui, ali e acolá, sem eira nem beira – coisa boa era ser à deriva.

Fechou o apartamento no Rio e voltou à cidade da adolescência: queria encontrar o garoto de antes, mas, na verdade, ela queria, principalmente, conciliar-se com a pessoa que era quando namorava com ele. Tinha pouca memória. As fotos do álbum guiavam seu pensamento – não era isso o que ela buscava. A essência da garota que ela foi precisava ser reconstruída naquele momento supremos de liberdade.

Por alguma estranha razão, o momento também pedia o reencontro com o namorado com quem conversava lonjuras.

O que dele ela conseguia se lembrar: de como falavam e riam, de como se beijavam e também do ciúme. Apesar das turras, era algo calmo e elétrico ao mesmo tempo – como funcionava essa combinatória? Também tinha a lembrança da camisa azul escura que ele usou quando dançaram a noite inteira em uma festa. A lembrança dele chegando com discos na mão era uma foto na parede da mente.

Quando chegou ao hotel na cidade de antes, pensou na tolice do que acabara de fazer: por que viajar para procurar uma pessoa, quando o mais fácil seria percorrer a internet, sondar com amigos e vizinhos da época por onde ele andava?

Porque ela queria tudo, não só reencontrar a pessoa. Queria a cidade de volta, o laranja do pôr do sol, o frio, o céu, o vento…

Queria ela mesma de volta.

Mal colocou a bagagem no quarto e saiu andando. Tinha o endereço do prédio onde moravam e foi para lá, sabendo que não o encontraria, claro.

Ficou horas no vento, relembrando os passos de um tempo perdido. Era a partir daquele instante que ela desvendaria seus mistérios – o que ela seria dali para a frente estaria ligado ao que encontraria dela mesma no passado.

Era o começo de uma expedição.

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* Esta história vai ter continuação na próxima semana. Até lá!

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.