Quando se descobriu sozinha no apartamento que de repente ficou imenso, teve um pequeno sobressalto. Sentiu-se como dentro de um cubo mágico que aumentava de tamanho, enquanto ela diminuía – ou era o contrário? O que aconteceu primeiro ela não conseguia perceber, mas o fato era que as dimensões de espaço e pessoa ficaram estranhas naquela tarde, quando ela se deu conta de que estava sozinha depois que as filhas partiram cada qual para um canto do planeta. Não se contentaram em sair de casa; saíram do país e do hemisfério. Estavam felizes. Isso bastava.

Foi então que nem a janela aberta foi suficiente para espalhar rua afora a sensação de que ela estava sumindo naquela imensidão. A noite avançava, o que só piorava o abandono. Até quando a situação chegou a um ponto crítico: o aperto no coração deu notícia de que ela estava tendo um infarto ou algo semelhante.

Estava já preparada. Sabia que a qualquer momento ela poderia pifar, pois a mãe começou assim.

Não negaria o exemplo, era fiel e obediente.

A mala estava arrumada dentro do closet para qualquer emergência. E, naquele momento, a emergência era um coração doente. Ofegante, mão no peito, chorava. Pediu ao porteiro que chamasse um táxi.

– Moço, estou morrendo. Me leve a um hospital, mas eu posso morrer no caminho.

O taxista não acreditou ou não quis levar a sério o ataque de pânico. Talvez fosse um anjo ou um ex-psicólogo disfarçado. E começou a conversar com ela como se nada estivesse acontecendo. Ela aceitou a meada, adorava conversar com estranhos.

Quando chegaram ao hospital, já eram almas gêmeas, ela tão carente, imaginou que talvez fosse o destino. Feitos um para o outro? Quantas afinidades em um curto trajeto… Despediu-se dele sem nem ao menos pegar um cartão. Que pena.

Entrou no hospital como se fosse uma noiva.

Estava apaixonada.

Mas e o coração? Doía, ainda achava que ia morrer, o que só tornava mais trágica a história. Entrou e foi atendida na emergência. Depois de alguns exames, a surpresa:

Nada, não havia nada, nenhum sinal, o menor que fosse, de um infarto.

– A senhora teve uma dor de gases provavelmente.

Gases?

Foi com dificuldade que ela aceitou o diagnóstico nada romântico. Sentiu-se ainda menor e ridícula – apaixonada pelo primeiro estranho que viu na noite e ainda por cima com gases. Se ao menos estivesse morrendo, não teria que voltar para a casa, que continuava aumentando magicamente.

Ou ela que diminuía?

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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