Quem olhasse aquele senhor de poucas palavras, sombrio, nunca diria que um dia foi um menino ansioso pelo dia do aniversário de 7 anos. Tinham acabado de se mudar para o Rio. Vinham do Recife. A família de 5 filhos, uma mãe dispersa e um pai alcoólatra. Ele esperava que, no meio do tumulto da mudança, alguém fosse se lembrar de fazer o bolo, convidar os vizinhos que ainda eram estranhos. Para comer de graça com certeza apareceriam. Acordou mais cedo do que o costume, não tinha aula. Arrumar um colégio estava entre as dezenas de coisas a se fazer.

Não cogitou a possibilidade do esquecimento coletivo.

Aprontou-se com a melhor camisa e a melhor bermuda, não que tivesse muitas. O chinelo de dedo. Saiu do quarto para receber os parabéns, adorava um cortejo. E, aos 7,  sentia-se de algum modo especial, queria até salva de palmas.

As irmãs e o irmão estavam ocupados com urgências impostas pela mãe que tentava fazer o fogão doado funcionar. Não o viram. O menino se colocou na frente de um por um a fim de que se lembrassem de que havia um cumprimento a fazer.

Nada.

Nem irmãos, nem mãe. O pai estava fora e só chegaria de noite, provavelmente quando o garoto estivesse dormindo.

Ele tentou várias vezes se colocar no meio do caminho, entre os quartos, na esquina do banheiro, com a esperança de que alguém se lembrasse: “Aí, mano, parabéns!”

 “Meu filho, vê se cria juízo agora com 7 anos, hein?” foi a fala imaginária da mãe, que nem se lembrou de dar bom dia. Estava atarefada demais, que fogão maldito era aquele. O tempo de 24 horas avançava. Quando as esperanças de um feliz aniversário desapareciam com o sol, ele resolveu se sentar no último degrau da escadaria e esperar ali o dia acabar. Estava triste, mas não queria contar para ninguém. Amolaria o dolorido até afiá-lo; viraria um punhal.

Até que, antes mesmo de anoitecer completamente, na entrada do portão de ferro, viu o pai surgir. Estranho, ele nunca chegava cedo, tinha sempre um bar no meio do caminho da casa, onde quer que a casa fosse…

E não é que aquele pai bêbado, cambaleante, de quem ele nunca esperava nada a não ser a vergonha e o cheiro forte de cerveja, trazia nas mãos tremidas o único presente do dia: uma caixa de lápis de cor?

– Feliz aniversário, meu filho. Você, que adora desenhar, faz um quadro bonito aí para a nossa casa nova.

Nem era nova a casa. Um sobrado velho e descascado. Mas o pai acertou quando disse que o garoto adorava desenhar.

O menino não soube o que pensar. Não falou nada, engasgou um obrigado.

Não abriu a caixa de lápis, dormiu com ela debaixo do travesseiro. O resto da família não se lembrou nem no dia seguinte do aniversário. Por toda a vida, ele desistiu de comemorar seu dia a partir daquele sétimo ano. Passou a detestar a data.

Podia ter aberto a caixa e colorido o restinho do dia. Mas não. Ali nascia, no menino, o senhor sombrio que ele virou.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.