Sabia que, em algum momento, o fato de ter nascido no dia dos mortos ia trazer um agouro – a infância e a adolescência a pouparam, mas os 50 anos trouxeram a doença do pai. E com ela a iminência.

A mesa posta, tinha o macarrão com vinho do Natal. Seu aniversário sempre antecipava o cardápio familiar sem muitas opções. Não que ela quisesse aquela comemoração, mas percebeu que, depois dos 45, a família passou a administrar suas escolhas, como se o corpo e a agenda fossem comunitários.

Tudo foi medido e conduzido para que ela aceitasse aquele dia dos mortos-vivos que, afinal, era seu aniversário, da maneira como deveria ser: em família.

Logo ela, que precisava às vezes estar só.

Há quanto tempo não ia à praia, caminhar na areia, ver o pôr do sol… Olhar o horizonte era uma forma de comunicação com o universo, ela pensava, uma tentativa de perceber a existência de mundos distantes. Se ela ousasse dizer que precisaria deixar a mesa para ir à praia passar seu dia – que afinal era “dela”, um presente da vida – se ela tivesse esta coragem, seria punida, porque a mesma legião que determinava sua agenda também costumava se reunir para julgamentos. Como naquela vez que decidiu escurecer os cabelos. Foi linchada. Nasceu loura, ficou horrível morena; as pedras eram os olhares.

Então, para facilitar as coisas e agradar também às filhas, fingir-se de calma e amena, o que só conseguia com uma conciliação (quase uma domesticação de si mesma) entre seus lados manso e nervoso, resolveu aceitar a agenda que lhe impuseram.

Todos servidos de macarrão – menos ela, que não comia massa, mas isso era um detalhe. Tinha ovo mexido e salada, que ótimo, a família estava feliz. Mal começou o ritual, o pai colocou as mãos na cabeça, o prato ainda intocado. E disse:

– Vou embora.

A tia do lado não entendeu bem e falou:

– Vai para onde? Não vai almoçar primeiro?

O pai repetiu:

– Não, estou indo para outro lugar.

O teatro familiar não permitia que as pessoas deixassem evidente que entenderam o anúncio de morte naquela mesa de aniversário.

Ela ficou quieta. O que dizer? Deixa de drama, vamos comer, o que é isso, pai?, que delícia essa comida, nossa, mas esta semana fez calor.

Preferiu fazer silêncio.

Se ele realmente fosse “embora” naquele dia dos mortos, a despedida daria algum sentido à data.

O pai se levantou e foi para o quarto se deitar no ar.

A família continuou na mesa para dar seguimento aos “festejos”. Se ele não morresse, era preciso comemorar um nascimento, no caso o dela, a filha.

Quando o almoço acabou, o pai voltou para a sala. Tinha ressuscitado.

Não seria naquele aniversário que nascer no dia dos mortos faria sentido.

Ele voltou a tempo de comer o bolo – tinha até vela.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.