Talvez ela ainda não soubesse que estava sozinha no mundo. E o mundo era o mundo mesmo, não era sua cidade natal, nem o quintal nem a praia da infância nem a montanha das férias em família. O mundo era onde ela funcionava no modo “anônima”. Onde precisaria repetir seu nome porque os não anônimos não reconheciam a forma correta de pronunciá-lo. Aos poucos ela foi se acostumando a não ser ninguém.

Só que, ingenuamente, não sabia que estava sozinha, e os que passavam eram apenas os que passavam. Não paravam para perguntar as horas nem o endereço de algum lugar. Ou porque ela tinha cara de que não sabia de nada, ou talvez porque fosse mesmo porque fizesse parte dos invisíveis, transparentes, translúcidos, almas sem corpo.

Não tinha condições de saber a verdade e qualquer que fosse a verdade seria terrível.

Assim, seguia fingindo que era uma pessoa no mundo.

Ia para a rua, fazia mercado, sorria para as alfaces, que dia lindo, não é mesmo, mas acho que vai chover, dizia para as cebolas. Não havia interação possível, porque as alfaces e as cebolas não respondiam. Então ela fingia que estava tudo certo. Era a vida possível. Não percebia que todos os esforços de se tornar visível seriam absolutamente inúteis. E seguia tentando existir.

Um dia, resolveu fazer um chá e convidar à mesa alguns impossíveis. Eram passantes que ela encontrava na lavanderia comunitária do prédio e também os funcionários da peixaria. Achava que seriam futuros amigos, caso ela conseguisse aumentar o diálogo além das três palavras básicas e óbvias de sempre.

Não se sabe se foi por preguiça de negar ou algum sentimento parecido, mas o fato é que os impossíveis aceitaram o convite para o chá. Ela prontamente lhes estendeu um cartão com o endereço para não haver erro.

Arrumou tudo, colocou na mesa a única porcelana que tinha guardada – azul.  Comprou biscoitos doces e salgados. Queria que tivesse alguma fartura para criar entusiasmo e vontade de prolongar a visita. Finalmente, os tempos de solidão chegariam ao fim, ela teria amigos aos quais ensinaria a pronunciar corretamente seu nome.

Ela existiria em plenitude, corpo e alma.

Na hora marcada, esquentou a água do chá e deixou no bule para não esfriar. Sentou-se na cadeira de frente à janela da cozinha, que dava para um pequeno pasto onde não havia animais além de insetos gigantes.

Já estava quase terminando o verão, os dias ficavam mais curtos. Ninguém lá fora, nenhum passante à vista. Atrasados, certamente. Deveriam estar no trabalho ainda.

O dia foi sumindo dentro e fora da cozinha. A noite subia, e as luzes da casa continuavam apagadas; ela na escuridão, esperando as visitas, a água esfriada no bule. Ela ficou ali, de frente para o pasto vazio. Depois encarou a porcelana azul disposta na mesa sem serventia. Resolveu comer os biscoitos, iam estragar.

Quem olhasse de longe a cena veria: a mulher no breu, comendo biscoitos, sentada no banquinho de uma cozinha com a janela aberta para o pasto.

Era uma cena que iria sumir aos poucos, porque ela desistiu de acender a luz, e a escuridão só confirmava o que no fundo ela já sabia: era invisível…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.