O casamento morno nem merecia luz nova para a sala de jantar. Mas já que haviam perdido um tempo enorme cruzando a cidade em busca de preços melhores e estavam na loja, resolveram então comprar um bem grande para iluminar o que comeriam.

Ela até imaginou, quem sabe o elemento novo na casa poderia dar um rumo ao que parecia destruído. Por intuição, sabia que ele mentia; a traição apavorante. Ela também mentia: não o queria mais, só não tinha força nem coragem para sumir.

Escolheram o lustre.

Na verdade, ela escolheu e ele aceitou porque estava impaciente, o tempo sempre curto, outras urgências além da casa.

Antes do fim da compra, o celular dele tocou. Ele não atendeu, disfarçou.

Ela não precisava da ligação para saber o óbvio – ele sempre foi péssimo mentiroso. Ela guardou a informação. Não era o momento de agir.

Compraram o lustre e depois cada um foi para um canto da cidade.

Ela chegou mais cedo em casa, pediu ajuda aos porteiros para instalar o lustre.

Perfeição, escolheu com acerto.  Ficou linda a sala de jantar toda iluminada.

Quando ele chegou, a casa tinha nova luz.

Sob o clarão novo, ela anunciou o fim. Aquela tarde na loja de lustres tinha sido o último minuto do casamento infeliz. A última mentira.

Ele não entendeu nada.

Ela não permitiu nenhuma palavra, nenhuma falsa explicação. Tanto tempo de convivência e a ele escapou que a verdade é um relance. Escapou também que ela jamais anunciaria o que iria fazer como ato final.

A decisão é sempre uma luz nova – acende como se vira uma chave.

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Quem na vida já não passou por uma experiência de perceber uma mentira? É uma sensação muito ruim, especialmente se temos uma intuição forte para perceber. Acredito que as decisões surgem como um lampejo. E a mudança de rumos também. Não acham?

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.