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Publicado em: 12 de setembro de 2021

O eterno atraso e a festa perdida

Poderiam nem sequer notar a falta que ela não fazia naquele mundo, e ela não queria se colocar à prova.

Imagem: JackF/iStock

O pai deveria saber. Até porque a menina repetiu mil vezes ao longo dos últimos meses o quanto a apresentação de final de ano era esperada – correram ela e a mãe até Copacabana para comprar dois cocos abertos e pintados que seria para a dança da turma. Mesmo que ela não se sentisse muito à vontade no colégio, ficar fora da festa seria comprovar isso para uma pequena multidão. A escola era grande e, se a menina não aparecesse, poderiam ter a certeza de que ela realmente era um ser à parte. Ou poderiam simplesmente nem sequer notar a falta que ela não fazia naquele mundo, e ela não queria se colocar à prova. Então, estar presente, de coco em punho, era mandatório.

O pai deveria saber.

No dia da festa, pela manhã, ela frisou os cabelos com papelote. Expor-se ao público de cabelo liso era algo que não estava na programação íntima. O vestido tinha sido escolhido por ela, pois só havia um: o amarelo de lastex. A sandália de couro. Mal conseguiu almoçar. A comida era sardinha em lata, então era melhor não, porque só com algum esforço conseguia comer sardinha. Optou por uma fruta que comeria no caminho – longo – até a escola.

O pai deveria saber que o caminho era longo, e não poderiam sair de casa em cima da hora. O que ninguém avisou a ele foi que não poderia dormir de tarde, pois ele sempre acordava lentamente e isso colocava em risco a necessidade de a menina não se atrasar para a apresentação.

O pai dormiu. E acordou lentamente.

A menina tinha um nervoso imenso daquela lentidão. Os passos, os braços, a maneira mórbida com que ele reunia os documentos, a chave, a carteira. Era todo ele de uma lentidão que beirava a maldade. Ela tinha pressa e desejo de chegar pontualmente alguns minutos mais cedo, conforme a professora pediu.

O esperado, então, aconteceu.

Pegaram um engarrafamento monstro. Ela poderia comer vinte frutas em vez de uma no percurso. Chegaram muito atrasados. A dança da turma já havia começado.

Em vez de ficar de fora, encostada na pilastra vendo os outros dançarem, a menina esbaforida entrou correndo no meio da dança, os cachos falsos esvoaçando. Fez dois mínimos movimentos antes de tudo acabar, mas estava ali para os aplausos.

Depois disso, recolheu seus cocos na mochila e foi embora – o caminho longo para a casa. O pior de tudo foi que o pai, que deveria saber o quanto chegar na hora era importante, continuou não sabendo.

POR CLAUDIA NINA [email protected]

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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