Andava sempre cercado por um bando – de meninas, todas quase lindas, três de um lado e três de outro. Parecia um rei sem trono e sorridente, desfilando pelo corredor da escola. Grande, bem moreno, os cabelos enrolados, os olhos escuros e cheios de cílios que eram uma especialidade à parte. A menina, recém-chegada à cidade e ao colégio, estava aos poucos descobrindo novas paisagens humanas. Quando viu o garoto incrível cercado de meninas, deu de cara com aqueles cílios imensos e caídos, o que pode talvez ter sido o primeiro motivo de sua adoração pelo rapaz.

Ela prendia o cabelo na parte da frente com duas pequenas tranças. No dia em que viu o garoto pela primeira vez, usava uma bata indiana e calça jeans. Não havia uniforme e isso era uma liberdade que ela odiava, porque seu guarda-roupa era mínimo, e ela quase sempre ia com a mesma bata, que acabou virando uniforme.

O tênis All Star bege ela não tirava por nada. Ou quase…

No recreio, o garoto passava desfilando com seu séquito no corredor. Olhava para a frente, para os lados, para o céu, mas não olhava para a menina que, de tão branca, parecia transparente diante do “rei”.

Um dia, como ele nunca olhava mesmo, ela se prestou a observá-lo em detalhes. Notou os pés: calçava alpargatas azuis. Adorou aquela ousadia, quando todos os demais usavam tênis. Ela quis imitar. No dia seguinte, infernizou a mãe para encontrar na cidade nova um lugar que vendesse alpargatas. Tinha que ser azuis.

Assim que encontrou, trocou o All Star pelas alpargatas. E foi para o colégio. Não esperava que ele a notasse, se ele mal olhava seu rosto, imaginem os pés.

Só que o improvável aconteceu.

No dia em que se cruzaram no corredor, ambos de alpargatas, ele cravou os olhos nela, fixamente. Ela não percebeu se o garoto chegou a observar a vestimenta de seus pés. Não sabia o que fazer com aquele olhar. Mas conseguiu sustentar o dele com a mesma força. Daquele dia em diante, sempre que ele a encontrava no corredor, acompanhado das garotas lindas que se debruçavam sobre seus ombros, ele a olhava fixamente.

Não diziam nada – não diziam nada com palavras.

Houve até uma hora que ela ouviu um comentário malvado vindo de uma das meninas em sua direção – “aquela branquela de cabelo comprido”.

Tinha, por fim, chamado a atenção.

Uma vez, ela o viu sentado sozinho em um canto, desvencilhado das meninas. Isolou-se de cabeça baixa. Devia estar triste. Ela achou ainda mais lindo o garoto grande e triste. Ficou olhando de longe e, não fosse a timidez de seus 15 anos, teria ido até ele e perguntado o motivo do isolamento. Contentou-se em ficar olhando a forma como ele existia. Mas talvez ela tenha ido até ele – com o pensamento, o olhar distante e cuidadoso…

O tempo passou e ela cresceu. Saiu do colégio para a faculdade, teve namorados. Ainda usou a alpargata por um bom tempo. Desfez as tranças para nunca mais, e a bata amanheceu um dia cheia de rasgos de tão surrada. Jamais poderia esperar que, depois de tanto tempo, aqueles olhos escuros e cheios de cílios caídos sobre a vista a surpreenderia novamente.

O que ela fez deste reencontro até hoje não tem nome.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.