Um dia daquela infância houve um domingo diferente de todos. Fomos surpreendidos por um estrondo e um urro de dor no comecinho da madrugada. A primeira imagem foi meu pai sentado no sofá com o dedo indicador para cima, a cabeça tombada para trás. Mal se mexia de dor.

– O que aconteceu? – perguntamos eu e meu irmão ao mesmo tempo.

– Durante a noite, seu pai esqueceu a porta do quarto mágico entreaberta. Quando a Dona Ivone de repente acendeu a luz da cozinha, ele esmagou o dedo ao fechar com força a porta – explicou minha mãe, trocando de roupa para irem ao hospital. Sabíamos da lei da escuridão que regia aquele quarto secreto – era o lugar onde ele fazia a mágica das fotografias, misturando líquidos e produtos.

Dona Ivone era a vizinha.

Meu pai precisava ir para o hospital com urgência.

Ficamos com Dona Ivone, a filha dela e o gato assustado.

Dormimos tortos, em frente à janela, esperando por notícias.

Teríamos que ir para a aula no dia seguinte cambaleando de tanto sono, mas com uma história para contar.

Quando abrimos os olhos para a claridade, vimos surgindo, no fim da escadaria, minha mãe e meu pai com a mão para cima, em riste, como se apontasse alguma estrela no céu claro. Fomos correndo ao encontro da porta.

Meu irmão resolveu inspecionar o dedo doente. Eu era o oposto: sentia calafrio só de olhar. Era como se de repente o meu dedo também ficasse gigante e dolorido…

A mão do meu pai precisou ficar enfaixada por um longo tempo. Ele levaria uma vida normal, mas não poderia carregar peso nem mexer os dedos. Tudo quase normal, exceto os fins de semana, que não seriam mais registrados, porque a máquina profissional era pesada à beça. Um pai-dedo-doente precisava de repouso.

Mas como fazer para o tempo repousar?

– Pai, não vai mais ter foto? – perguntei, como se não houvesse outra preocupação no mundo além da urgência em guardar o tempo.

Ele guardava nosso tempo de infância nas fotos que tirava de nós…

– Eu tenho uma ideia! – ele disse, animando-se de repente. – Você será a guardadora oficial do tempo até que eu fique curado do dedo!

Não acreditei.

Me arrumei para meu primeiro dia como guardadora. Foi um momento solene, em que meu pai colocou a máquina no meu pescoço e disse: “Bom trabalho”!

Como era eu que estava no comando, decidi para onde ir. Fomos para o Jardim Botânico, meu lugar favorito na cidade. Afinal, foi lá que meu pai tirou a maior parte das fotos, e eu vi nosso tempo guardado naquelas paisagens lindas: o lago das vitórias régias, as árvores imensas, o chafariz, os bancos de pedra…  

Aquele dia inaugurou um momento especial: eu não era mais tão criança. Já estava quase fazendo 12 anos e resolvi fotografar o mundo e o tempo que passava por mim em tudo o que eu via pela frente, inclusive as pessoas.

Logo a mão do meu pai sarou. E logo ele pode novamente fotografar. Mas eu já tinha pego o gosto. Mesmo que eu devolvesse a máquina, o olhar já estava treinado.

Eu, guardadora dos tempos alheios.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.