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Publicado em: 9 de maio de 2021

O quase viajante no muro da igreja

O tempo da espera é sempre eterno, não importa se dura dez minutos ou cem anos.

Imagem: FotoDuets/iStock

Tempos estranhos, em que ninguém vê ninguém. Nem mesmo o homem sentado no pequeno muro da igreja, de frente para o colégio. Ao lado, uma mala azul, de tamanho médio. Estava ali, talvez, por centenas de anos, na mesma posição.

A vida de quem entrava e saía do colégio não se modificava um centímetro sequer com a presença do homem, assim como em nada transformava os que iam à igreja ou atravessavam a rua e davam de cara com o homem plantado no lugar de sempre. O mais curioso era a mala e a posição de espera. Como se estivesse ali por causa de alguém que nunca aparecia. Era um homem quase velho. Quanto tempo ele ainda esperaria quem não aparecia? Mais alguns anos, quem sabe, e ele seria enterrado ali, no chão perto do muro da igreja, em frente à escola, abraçado à mala azul.

Vestia uma camiseta sem manga branca e uma calça escura. Estava de chinelos. Será que já havia chovido em algum daqueles dias? O homem talvez tivesse sorte, porque estava seco. Se estivesse sentado no muro da igreja de frente para a escola ao lado da mala azul e ainda por cima estivesse molhado, ele seria a pessoa mais solitária do mundo.

Estava sério e olhava fixamente para a escola.

O que levaria dentro da mala? Para onde iria quando a pessoa que ele esperava chegasse?

A possibilidade de ninguém nunca chegar talvez fosse maior do que uma chuva naquela época do ano. O homem não sabia disso e esperava. A mala também pousada no muro – será que ninguém da igreja se lembraria de expulsá-lo? Mas que mal ele fazia? Nenhum. Era um quase viajante no meio da rua.

O tempo da espera é sempre eterno, não importa se dura dez minutos ou cem anos. A vida seguia com pressa, e o homem ali.

            As alternativas para o mistério:Era um homem pobre, que havia perdido tudo, até a casa. O que restou cabia na mala.

1- Era um homem apaixonado, que estava à espera de alguém.

2- Era um homem louco, que havia perdido a noção do próprio rumo.

3- Era um homem sozinho, que precisava mostrar ao mundo o tamanho da solidão.

4- Todas as alternativas são corretas.

Tempos estranhos estes, em que ninguém vê ninguém.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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