Ninguém, nem mesmo a mãe, conseguia explicar o motivo daquele silêncio. O fato é que, a partir do dia da morte do avô, a menina deixou de falar com a avó. Fechou a cara tão logo soube da notícia; fechou o silêncio com chave. A recusa era um quarto trancado – só a menina entrava.

Ela tinha 5 anos. As histórias sobre as bebedeiras do avô e as brigas com a avó eram espalhadas pela família, mas não se sabe se ela conseguia entender. Provavelmente sim porque não dava muita atenção a ele; era implacável em seus julgamentos de menina. Algo que a mãe achava estranho: como uma criança podia ter tanta certeza do que gostava e do que não gostava nas pessoas? E como conseguia, só com o olhar, deixar isso bem nítido?

A conversa com a avó foi interrompida no dia do enterro do avô. A menina estava com um vestido curto branco, com uma renda bem fina na barra. O registro ficou nas fotos. Ela agarrada à perna da mãe. A avó no extremo oposto. Quem sabe depois de algumas tentativas de chegar mais perto da única neta para consolo.

Quando voltaram para a casa, no carro os questionamentos morreram em mais silêncio. Por nada a menina contava os motivos misteriosos que se escondiam por trás do recolhimento. Ela até ia visitar a avó todos os domingos no Catete, mas era uma visita de praxe e imersa no silêncio eterno. Não havia bolo de rolo nem chocolate que salvassem aquela relação que parecia ter morrido no dia do enterro do homem.

A menina cresceu sem nunca mais dar uma palavra à avó.

Virou mulher, mudou de país.

Até que um dia as circunstâncias uniram a família toda que restava novamente. Ela e a avó foram confrontadas. Enfim, algumas palavras foram ditas para uma senhora na cadeira de rodas, que envelhecia com aceitação ao sumiço lento da liberdade do corpo.

Nunca ninguém soube o motivo do silêncio de tantos anos.

Talvez nem a menina, que, caso soubesse, não teria coragem de contar nem a si mesma depois de adulta.  

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.