Devia ter uns quatro anos. Seu irmão ainda não havia nascido, era uma sozinha no mundo dos adultos naquela casa. Muito tempo depois, ela entenderia a importância da solidão para seu futuro, pois viveria da imaginação.

Todos os dias ela fazia seu treinamento. Arrumava o que tinha de mais precioso – como sua coleção de conchas, que enfurnava em uma pequena mala, cuidadosamente guardada dentro de uma bolsa grande de plástico rosa, presente da avó. Ali iriam suas roupas, incluindo o chinelo e a sandália preferida. Álbuns de figurinhas e as caixas antigas de chicletes importados que a vizinha tinha dado. Naquele momento, eram seu tesouro.

E por que a menina fazia essa cuidadosa mala de fuga?

Porque tinha dentro dela a certeza absoluta de que sua casa pegaria fogo e ela precisaria fugir de repente. Não tinha lido nada em lugar nenhum até porque ainda não sabia ler. Nem visto nenhum filme que a influenciasse. Era um medo e uma certeza só dela. Ela não pensava “e se”. Tinha certeza do que aconteceria, então precisaria estar pronta.

A mãe não tinha percebido a movimentação. A menina achava natural. Era uma certeza sobre a qual todos estavam conscientes – não chegou a pensar assim, só muitos anos depois. Naquele momento, apenas não avisou o motivo da arrumação e ponto. Era preciso. Em breve, a casa iria pegar fogo e ela não poderia deixar suas coisas se perderem.

Um dia a mãe entrou no quarto e surpreendeu a menina cuidando dos guardados, como se estivesse prestes a sair em fuga.

– O que está acontecendo? Vai a algum lugar?

A menina ficou muito nervosa.

Não era para descobrirem sua intenção de se preparar para o pior, mesmo que ela já soubesse que todos deveriam saber – um dia aconteceria.

– Er, hum, não… Só arrumando.

A mãe achou estranha a reação, mas sabia que a filha tinha brincadeiras estranhas, como falar sozinha, ou melhor, travar longas conversas com seus amigos invisíveis e imaginários, e coisas assim. Deixou quieto. E foi embora.

A partir daquele instante em que a mãe não deu importância ao que era um treinamento importante – poderia ter investigado mais a fundo o motivo por que a menina estava arrumando suas coisas –, a menina sentiu vergonha do medo. E pensou: por que só eu sei que a casa vai pegar fogo? Por que estão todos tranquilos?

Aquele foi o último dia em que checou suas malas de fuga.

Depois não conseguiu mais – algo dentro dela havia mudado. Talvez a calma da mãe a tivesse acalmado, talvez…

Aos poucos, sentiu-se ridícula.

Mas, ninguém nunca soube, aquele treinamento preparou a menina para muitas fugas importantes, outras, que aconteceriam em sua vida maior.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.