Foram todas à loja que se chamava Bruxa. No topo, o desenho de uma vassoura. Era uma loja pequena, assim como pequena era a cidade de poucas opções de comércio. Duas tias, a mãe e a menina. Uma tarde inteira batendo perna e depois a recompensa: o cachorro-quente tão esperado. A menina estava de férias e tudo era festa: bater perna, ir à loja da bruxa e finalmente o lanche. Entraram porque a mãe queria ver as novidades. A dona, uma senhora alta e faladeira, colocou coisas lindas no balcão, e as mulheres se maravilhavam. A mãe se encantou com um vestido, que era perfeito, não fosse a cor.

– Ah, que pena. Não uso roxo… Não gosto muito.

– Não é roxo. É vermelho-vinho – insistiu a dona.

A mãe não era mulher de se indispor.

Tinha preguiça de contradizer quem quer que fosse. A preguiça começava com o marido e terminava na senhora dona da loja.

Acanhava-se, engolia a palavra, não tinha voz boa para dizer não quero, não gostei, não vou levar, cala essa boca, já falei que é roxo. E a dona da loja insistia porque queria vender o vestido – vermelho.

A mãe, acuada, as tias idem. A situação continuou durante um bom tempo, a senhora da loja insistindo, mãe e tias sem argumento nem força, já estavam quase comprando cada qual um exemplar do vestido para que a senhora enfim se satisfizesse.

A menina estava distraída com as pulseiras. Adorava vestir várias delas e ficar com o braço tilintando como se fosse uma cigana. Ia pedir para a mãe comprar mais duas, ficaram lindas. Quando se lembrou de que havia o mundo além das pulseiras, viu a cena da senhora dona da loja praticamente empurrando os vestidos “vermelhos” para a mãe e a tia, que não sabiam mais o que dizer. A mãe repetia:

– Mas é roxo…

A filha sabia que a mãe não gostava da cor.

E, ao olhar o vestido, não teve dúvidas. A mãe tinha razão e, mesmo que não tivesse, partiria para a sua defesa.

Esperou que houvesse um minuto perfeito de brecha na conversa das mulheres e entrou no meio delas, o topo da cabeça na altura do balcão, as mãos cheias de pulseiras segurando o vidro. Ninguém viu a ponta do pé para parecer maior.

Com voz firme e grave anunciou:

– Este vestido nunca foi vermelho nem vinho. É púrpura. Minha mãe não gosta. E você tem mesmo cara de bruxa.

Tinha aprendido a palavra “púrpura” havia pouco tempo e estava radiante em poder usá-la diante de uma audiência.

Depois da fala ríspida, aconteceu um silêncio que ninguém teve coragem de quebrar. A senhora não respondeu nada além de um riso frouxo. Não havia mais o que dizer. Saíram todas sem levar o vestido.

A menina ganhou as pulseiras.

A mãe e as tias estavam aliviadas. Não sabiam como iriam se desvencilhar da senhora. A palavra “púrpura” as salvou.

A menina só não tinha aprendido ainda, era nova demais para saber, que ser “bruxa” não era um xingamento… Quem dera a mulher faladeira e insistente, chata e mentirosa, merecesse o nome que escolheu para sua loja. 

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.