O pequeno apartamento de térreo tinha uma área que era uma espécie de anexo que se juntava ao quintal. Um mundo estreito de liberdade  urbana que a menina adorava. Lá era também o espaço em que as ajudantes da casa costumavam dormir ou simplesmente deixar as coisas quando chegavam para trabalhar, o que transformava a área em um espaço de mistérios a serem desvendados: mistérios humanos.

As pessoas eram os mistérios que ela gostava de conhecer de perto.

Uma delas, Maria.

A menina se lembra bem dela. 

Era fina, morena, tinha cabelo comprido e branco – cara de índia, mas viera do Nordeste, de alguma cidade minúscula. A menina assistia à senhora tomar banho, porque também queria desvendar os mistérios do corpo velho. Ela que só tinha 8 anos. Como acontecia sempre, ficava boa parte do tempo que deveria ser dedicado aos estudos, no estudo da vida alheia – em profundidade.

Queria não só saber nome, idade, de onde tinha vindo, como era a família. A menina tinha curiosidades profundas, tais como: os sonhos de Maria, as alegrias de Maria, as tristezas de Maria… E, principalmente, o mistério maior: por que Maria chorava escondido? De vez em quando, a menina a via embrulhando e desembrulhando um papel. Era demais para uma curiosidade pulsante.

– Que papel é esse e por que você tá chorando? – queria saber.

– Nada não…

É claro que estas duas palavras jamais fariam a menina desistir. Depois de algumas investigações, ela conseguiu descobrir que o papel era uma cartinha da neta e dentro dela tinha uma foto. O mistério era que Maria sentia falta da terra dela e queria muito voltar a tempo do Natal – era outubro.

Naquela noite depois da confissão, a menina não dormiu.

A revelação era um anel que ela tinha que passar adiante. Tinha que agir logo.

No dia seguinte, começou a colocar em ação o plano elaborado: iria passar de vizinho em vizinho pedindo dinheiro para Maria comprar a passagem e também para comprar um presente para a neta. Começou com a mãe, que a princípio ficou desnorteada, mas depois se lembrou que a filha era capaz de ideias assim.

E foi de porta em porta, com uma cestinha de pão, recolhendo o que dessem. O prédio era grande, tinha vários apartamentos e, por sorte, vários vizinhos dispostos a ajudar. Ao fim de uma semana, de noite, quando Maria tomava banho antes de ir dormir, a menina colocou a cestinha com o dinheiro ao lado da cama e um bilhete:

“Maria, você já pode viajar. Feliz Natal. O dinheiro vai dar até para comprar panetone! Eu acho..

A menina estava agora já estava pronta para desvendar os segredos da ajudante que ficaria no lugar dela…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.