A neta era ainda jovem, nem tinha idade para envelhecer, mas a avó, sentada no sofá da sala de TV, como sempre, guardava para ela um comentário único:

– Você não envelhece não?

A resposta era o silêncio porque não sabia o que dizer; envelhecer não fazia parte da rotina do espelho. Então sorria, era um elogio. Desde que se mudara para outra cidade, as visitas à avó eram umas duas ou três vezes ao ano, por isso talvez fosse esperado que a avó notasse maior diferença na neta que, já adulta, não teria outro caminho a não ser ela também virar carcaça. Mas não sabia disso, e o alerta da avó não fazia sentido.

Toda vez que ela perguntava –  Você não envelhece não? – tinha vontade de responder de volta:

– Não, mas a senhora sim. Está cada vez mais velha.

Mas não respondia porque envelhecer era uma ofensa.

Guardava a pergunta, embora tivesse imensa vontade de dizer: Não esquece, vó, que o espírito envelhece antes do corpo. Sai desse sofá, desliga a TV, vamos para a rua…

Havia algumas décadas que a avó não saía mais. 

Tinha trocado os sapatos de salto pelos chinelos, dentro dos quais os pezinhos gordos balançavam. Foi em um dia de chuva dentro e fora do pequeno apartamento que a neta presenciou o funeral dos sapatos de salto. Todos dispersos na cama grande do quarto, eram para doação, cada mulher da família pegava o que quisesse. Eram muitos e de variadas cores, até o preferido, o vermelho. A avó nunca mais usaria.

Aquele também foi o dia da despedida.

A avó iria para uma clínica – o espírito tinha enfim envelhecido muito mais rápido do que o corpo. O coração batia bem, mas a cabeça não fazia mais sentido de existir. Ela não conseguia dizer nada além do próprio nome: Wanda.

Quando a neta foi visitar a avó pela primeira vez na clínica, viu os pés de pantufa quentinhos escondendo os dedos infantis. Sentiu que eles não tinham saudade das ruas nem dos sapatos de salto. Já haviam se confortado ao silêncio.

A neta não ouviu da avó o elogio de sempre.

E sentiu remorso por não ter dito a ela antes: Sai do sofá, desliga a TV, vamos para a rua…

Saudade de ouvir a vó dizendo: Você não envelhece não?

Mas naquele momento ela diria:

– Sim, até os netos envelhecem, vó.

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Não consigo por agora descrever o que me inspirou essa história. Ela me dói muito por questões óbvias. Fica o conselho: sempre chamem seus avós para a rua…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.