O casamento ainda era frágil e, dentro dele, qualquer brecha poderia destruir suas paredes em construção. Foi quando o marido pediu que a mulher deixasse a mãe dele plantar uma rosa na varanda do quarto do bebê que nasceria em pouco tempo.

Que ideia linda, uma rosa.

O que poderia haver de errado, estranho ou perigoso em permitir que naquele espaço esquecido, minúsculo, de terra seca e vazia, uma flor nascesse colorida e fresca?

A mulher não sabia dizer ao certo, mas sentia que talvez não fosse uma boa ideia. Não tinha argumentos, porém, para impedir o plantio. O que diria? A intuição era uma transparência invisível, não havia palavras que a significasse. E o marido estava radiante com a possibilidade de oferecer à mãe alguma serventia, já que, desde que o pai falecera, ela andava às voltas com uma depressão medonha. Nunca na vida fez outra coisa a não ser cuidar dos filhos que cresceram tão rápido que ela não notou. Sobrou um tempo enorme que ela precisaria preencher preenchendo a vida dos outros.

E, naquele momento, os outros eram a nora.

Marcaram dia e hora para a rosa ser finalmente plantada. Que a nora não demorasse muito a se levantar, pois logo cedo chegaria a mulher com luvas, um punhado extra de terra molhada e as sementes. Apareceu com pressa, como se disposta a cravar uma bandeira em algum planeta a fim de marcar o território. Mas isso ninguém percebeu.

O que mais foi escondido debaixo daquela terra era o mistério, pois nunca uma rosa demorou tanto tempo para ser plantada. A sogra não era presença miúda. Era falante, abusiva, estardalhosa. Fazia um barulho de existir como quem mastiga com um número maior de dentes do que o normal das criaturas. Tudo nela irritava a nora que, decidida a ser uma pessoa mansa, contrariando sua natureza, tentava manter o sorriso de paz e paisagem. Afinal, estava grávida e tinha que ser calma. Mas, por dentro, não conseguia esmagar o sentimento de repulsa – tudo na sogra lhe parecia falso e invasor, embora ela não pudesse falar nada. Era a mãe do marido. E ponto.

Só queria que o homem que ela tanto amava fosse capaz de ao menos entender seu pedido mudo: o medo das invasões. Aquela seria a pior de todas, a que abriria a porta para outras. A bandeira cravada – bandeira de guerra?

Depois de um dia inteiro, finalmente a mulher saiu da casa, deixando o espaço pronto para que a rosa surgisse. Rosa vermelha.

– Ah, vai ficar lindo!!!!!!

A nora detestava a forma exclamativa de a sogra falar, como se em toda a frase coubessem dez pontos em vez de um. Sorria de volta depois que todas as exclamações acabavam. Sorriso de paisagem e fingimento. Queria que a sogra perversa sumisse.

Com o tempo, como era de se esperar, a rosa cresceu.

A partir dali, a sogra decidiu que iria todos os dias aguar a flor – como se a nora não soubesse cuidar do próprio jardim. E, cada vez mais, criou motivos para estar na casa. Até porque logo o bebê nasceria – era preciso estar mesmo por perto.

A invasão planejada passo a passo.

A rosa cresceu. O bebê nasceu. E a casa ruiu. Assim como casamento.

Separaram-se os amores que haviam jurado vida eterna juntos.

A rosa, bandeira de guerra, plantada na terra invadida, morreu.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.