Este ano não teremos o nosso outono. E eu que já tinha preparado o jardim, plantado as mudas das flores de que você mais gosta para te receber…  É desta luz que você mais gosta, a mesma que entra pelas frestas da casa inteira no entardecer. Mas você não verá meu jardim nem as flores que eu plantei nem a luz se esgueirando pela casa. Pelo menos enquanto durar o outono; pela primeira vez, pularemos uma estação. Nós, que contamos nossos anos juntos pelas estações, agora teremos que aprender a pulá-las, de mãos dadas a distância, como em um jogo da amarelinha. Quem jogará a primeira pedra?

Neste outono de ausências, fico horas a fio na janela e estico o tempo gigante descascando as batatas de uma sopa para a noite. Não te contei como está frio aqui? Disso você não gostaria, mas eu me delicio com este pequeno inverno. Eu tinha comprado legumes para fazer muitas coisas, embora você saiba que eu simplesmente detesto cozinhar. Só que agora descascar as batatas tem me deixado de algum modo feliz. Nem eu me entendo. Você um dia provará a sopa que eu fizer?

Gosto de ficar na janela, porque consigo ver os barcos da enseada, e barcos me lembram aquela praia para onde fomos, onde havia muitos barcos ancorados. Em qual deles você chegará, enfim, depois que este outono eterno acabar?

Não se preocupe se o inverno te parecer ameaçador, nessa proa que me parece infinitamente longe.

Da mesma forma, vou fingir que pularemos apenas uma estação e que este mesmo inverno que te apavora será aquele que irá nos unir novamente. Por isso, vou lançar a pedra do jogo da amarelinha de forma a pular só uma casa, uma estação. Me recuso a pular mais do que isso porque o tempo que se expande é aquele da ausência. Eu recuso a ausência.

Então, vou para a janela, ver os barcos, descascar as batatas e planejar uma sopa gigante – vou dividir, não se preocupe. Sei que você fica triste quando se lembra da fome.

Depois vou inventar outras coisas para fazer enquanto espero o outono impossível passar – não suportarei de bom grado essa ausência obrigatória, mas entendo que, por enquanto, somos duas peças que não podem se mexer em seus tabuleiros um na direção do outro. Acato, mas reajo por dentro em esperança. Vou continuar plantando meu jardim e, pode estar certo, a luz do inverno irá te receber com mais frestas pela casa.

Até breve.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.