Ninguém lhe dissera que, naquele país, as coisas eram como eram. E ponto. A condição de estrangeiro significava, demorou a entender, estar em uma ilha da qual não poderia, naquele momento, descer – porque descer era entrar no mar e ficar à deriva.

Quando percebeu, já era tarde. Não havia sol. O céu baixo do país – não por acaso estava nos Países Baixos, as Netherlands – funcionava como um teto que esmagava sua já pequena estatura. A única forma de viver era seguir em frente e tentar manter os dois pés no chão sem olhar para cima, sem esperar que o sol surgisse e clareasse as manhãs noturnas.

Se conseguisse organizar uma rotina, talvez fosse melhor, mas havia pouco a fazer depois que o trabalho acabava, e ela avançava na madrugava imensa até o dia seguinte. Sonhava em voltar para sua casa natal. Ali jamais seria um porto, logo percebeu.

Seu rosto trazia a marca de tudo o que a alma pensava.

No silêncio, prosseguia.

Os trens que faziam o percurso até a cidade próxima, onde trabalhava, eram de uma solidão medonha. Dentro deles, os nativos iam em silêncio, cada um em sua pequena ilha deserta. Quando diziam alguma coisa, ela igualmente filtrava “o alguma coisa” como silêncio porque só entendia duas palavras daquela língua esquisita, que não lhe interessava aprender. Não queria partilhar o deserto de ninguém, até porque, mesmo que falasse a língua de entrada, tinha a impressão de que seria barrada na soleira.

Observava o ritual da conferência dos tíquetes. Uma vez, uma moça não havia pago e foi obrigada a ouvir um sermão de bons modos; da próxima, seria expulsa do trem. Ela tinha pânico de lhe acontecer algo parecido. Entrava no veículo e logo pagava na maquinha – ficava com o recibo na mão, parada, na expectativa sempre do pior. O homem chegaria e a confrontaria com a possibilidade do não pagamento.

Um dia, o homem vistoriou o pagamento de todos com a seriedade de sempre. Chegou perto dela e pediu para ver o tíquete. Ela, como sempre, nem teve o trabalho de procurar, já estava em riste.

Estava mais nublada do que nunca.

Uma tristeza sem fim, esmagada no teto de um país que nunca seria dela. Naquele dia, mais do que em todos os outros do ano, queria ir embora, fugir, sumir, morrer.

Por uma estranheza ainda sem explicação, aquele homem percebeu o acabrunhado. Chegou bem perto dela, olhou-a nos olhos e disse:

Smile!

Ele sabia que ela não era nativa, por isso nem tentou o idioma impossível.

Ela ficou surpresa diante do convite ao sorriso no meio de tantas nuvens.

Não conseguiu sorrir, estava sem combustível para fazer movimentar os músculos do sorriso imprestável. Apenas respondeu:

 – Thank you.

Voltou pensando que nem tudo estava perdido. Talvez ela ainda existisse.

__________________________________________________________

Este texto é uma homenagem a um romance meu que este ano faz 5 anos de existência: Paisagem de porcelana (Rocco). Fala de uma situação real, quando morei na Holanda. Fica o convite à leitura.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.