Ir tomar banho é entrar em uma fenda no tempo.

No banho, podemos ser quem a gente quiser, já reparou?

Podemos cantar imitando o Pavarotti.

Ensaiar coreografias como a Shakira.

Fazer o agudo da Mariah Carey.

Ensaiar discursos com o shampoo de microfone.

E fingir uma emoção ao ganhar o troféu do Oscar – que também é um pote de shampoo!

Tem gente que faz o banho até de motel.

Eu nunca fiz.

Imagina.

Hum.

Mas, enfim.

O banho também serve de agenda mental.

“Amanhã eu vou acordar, tomar café, aí tenho que ligar pra fulano, depois ir ao mercado…”

Tudo isso ao mesmo tempo que você se ensaboa, faz tratamento no cabelo, faz a barba, depila a perna, espreme cravo, assoa o nariz.

Foto: axeizz77/ iStock

E quando a gente sonha com o futuro?

Pensa que vai casar, que vai ter filho, ou fica ansioso por uma viagem que você nem se planejou ainda.

Mas o banho também traz esses sentimentos intensos.

Eu geralmente pulo de felicidade no banho por somente imaginar coisas que nem aconteceram.

Outras vezes, faço uma cena de filme chorando no banho e deslizo na parede até o chão.

Às vezes tudo isso em uma chuveirada apenas.

E eu tenho mania de ensaboar meu corpo pelo menos umas seis vezes, porque eu sempre acho que falta alguma coisa.

Depois eu fico com a pele mais seca que o Deserto do Atacama e não sei o porquê.

E também me dá a sensação de que estou sendo útil além só de pensar em bobagens e imaginar cenas.

Foto: AntonioGuillem/iStock

Durante o banho, já escrevi roteiros na cabeça.

Já tive ideias de presentes incríveis.

Surpresas inesquecíveis.

Lembrei de acontecimentos e dei gargalhadas sozinha.

Já entrei com uma ideia errada sobre uma pessoa e, no final, eu queria ligar dizendo que a amava.

Já até imaginei obras no meu próprio banheiro.

Tudo me faz crer que o banho é um universo paralelo.

Acho que uma boa água quente – no meu caso, pelando – sobre o corpo, pode mudar uma pessoa.

Banho é palco. Só que sem plateia.

A não ser o meu cachorro, que, sentado, assiste às minhas esquetes e encenações, cantorias e choradeiras durante 10 minutos.

Marina Estevão
Marina Estevão
Formada em Jornalismo pela PUC-RJ, sua paixão é escrever sobre o que vive, o que vê e o que sente. Afinal, toda história tem vários lados, o que muda é a forma de contá-la – sempre de bom humor.