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Publicado em: 4 de abril de 2020

Três semanas de quarentena

Eu já não sei mais o que eu sinto, que dia é hoje, que horas é hoje e o que vou comer hoje.

Imagem: Drazen Zigic/iStock

Três semanas de quarentena.

Não sei mais que dia é hoje, tive que olhar no calendário.

Nunca usei calendário, pra mim era coisa de gente organizada, que gosta de marcar festa, batizado.

Sempre tive inveja de quem usa calendário, agenda.

Esse é o único momento que posso usufruir dessas coisas sem culpa.

Então olhei e descobri que hoje é sábado.

Minha animação foi igual à de uma criança descobrindo que ganhou roupa de aniversário.

Falando em aniversário, estou pensando em comemorar o meu em dias aleatórios do ano, já que não sabemos até quando vai essa medida de isolamento.

Pelo menos uns 5, vai.

Acordar um dia e OPA, que tal comemorar hoje meu aniversário?

Para os convidados, biscoito de água e sal e ketchup.

Iguarias da quarentena.

Assim como não sei que dia é hoje, também estou perdida no horário.

Só sei o que é dia e o que é noite, como uma mulher das cavernas.

Coloquei um relógio de sol na sala.

Para deixar tudo mais primitivo, sabe.

Pelas minhas contas, meu almoço é às 19h.  

Vou começar a desenhar nas paredes com a sujeira das prateleiras.

Como uma mulher das cavernas do século 21, vou caçar de dia, pois à noite o inimigo está à solta.

Porém, minha caça custa caro.

Porque é no Zona Sul.

Nesta selva, compro sorvete, pizza, cachorro-quente, pipoca.

Tem gente saindo no soco por um biscoito.

Muita gente gosta de dizer que são “tempos sombrios”.

Mas eu digo sombrios e engordativos.

Os ursos polares gostariam deste clima.

Para passar o tempo, comecei a ver álbuns de fotos antigas.

Já estou em 1934 e só se passaram 3 horas.

O tédio começa a nos consumir a ponto de termos que voltar a ler livros.

Que afronta.

Não vejo a hora de poder voltar à rotina que eu tinha antes disso tudo acontecer.

Quando voltar, vou poder trabalhar de casa.

Sair quando quiser para ir ao mercado, à farmácia.

Quando encontrar alguém, vou torcer para voltar logo pra casa.

Assistir minhas séries que não assisti enquanto estava de quarentena.

Estou me coçando de ansiedade.

Aliás, nunca pensei que estaria tão ansiosa por um feriado específico.

O do Dia do Trabalhador!

Marina Estevão
Marina Estevão
Formada em Jornalismo pela PUC-RJ, sua paixão é escrever sobre o que vive, o que vê e o que sente. Afinal, toda história tem vários lados, o que muda é a forma de contá-la – sempre de bom humor.

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