O filete de luz no chão da sala, visto da esquina do pequeno quarto, anunciava a alegria adiada durante a semana. Não havia dúvidas: aquele seria um sábado de praia, com o acréscimo de que as primas de Ipanema também iriam. Era muita alegria para caber em um só dia. A menina foi pisando no pedaço de sol desenhado no carpete cinza até chegar onde o pai estava, de pé, ao telefone com a tia, combinando o passeio.

Ela, afoita, ficou do lado para ter certeza de que já estava tudo certo, a que horas vamos, onde a gente se encontra, quem vai com quem, a gente almoça depois então, vamos direto da praia. Que sábado perfeito! A praia, embora ficasse longe de casa, no Jardim Botânico, funcionava como um jardim cheio de brinquedos. Ela esperava ansiosamente pelo momento de levar sua pranchinha de isopor, colocar o biquíni azul e depois se achar linda com a nova cor de um dia.

Mas a vida tinha outros planos para o fim de semana.

Tudo muda o tempo todo

Quando a menina estava tilintando de felicidade, ela fez o gesto que mudou para sempre o destino daquela quase ida à praia: levantou a blusa na altura da barriga e… eis que centenas de bolinhas vermelhas surgiram. Sim, uma doença repentina, indolor, mas que iria desmanchar seus planos e o da família.

Ela nem pensou em esconder. Não conseguiria. Nem poderia. Seu pai imediatamente viu as “bolinhas”. Pronto. Acabou.

– Ih, não vai dar. Aconteceu uma emergência aqui – ele disse para a tia.

Era rubéola, no tempo em que ainda não existia tanta vacina, quando muitas manhãs de praia se desmanchavam daquela forma…

O acontecimento trivial – um passeio deixar de acontecer – foi para a menina um momento de profunda reflexão. Era o aprendizado da alegria tomada. Dali em diante, nunca mais teve coragem de ser confiante sem antes pensar que alguma coisa poderia estragar os planos do sol para ela. Passou a ter dificuldade em acreditar que, às vezes, é possível ser tão simplesmente feliz.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

 

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.