A filha estava na correria de sempre e não percebeu que, naquele exato dia em que a mãe chegou de viagem para uma temporada na casa dela, do outro lado do oceano, começou a cair uma neve finíssima – para os locais, não era neve de verdade, em seu vocabulário de mais de 40 palavras para designar a chuva branca. Mas, para aquela senhora que nunca tinha saído da pequena cidade de Minas, o que via na janela da cozinha, na primeira hora da tarde, era neve. A filha só percebeu que nevava quando passou na direção da sala e viu a mãe quieta, de pé, parada em frente à janela.

Poderia ser apenas uma senhora em pé de frente à janela da cozinha vendo a neve cair. Se a filha não corresse tanto, perceberia que não era só isso. A mãe estava chorando.

Para a senhora que, aos 70 anos, nunca havia saído de sua cidade natal sequer de rodoviária, estar ali, naquela terra distante e gelada, e ainda por cima vendo a neve, era um quadro bonito demais para caber em uma tarde. E chorou.

Em algum momento teria a moça visto a mãe chorando de emoção só porque estava vendo a neve?

Mesmo que tenha visto, não tinha como adivinhar o motivo maior da reverência ao céu. Na verdade, a mãe achou que a neve tinha alguma coisa de mágica. Não se sabe se foi no mercado que ela ouvira que a neve só chegaria a partir do mês seguinte; era absolutamente atípico nevar naquela época. Assim lhe disseram. Fascinada com a surpresa do tempo, aquela mãe viajante chorou. E ficou de frente à janela por alguns minutos até a mágica acabar.

Depois disso, virou-se e resolveu revelar à filha:

 – Essa neve foi um presente para mim.

Disse isso e se recompôs logo em seguida, voltando a ser a mãe prática e de poucas palavras. Voltou a tomar conta do dia e das coisas da casa, ajudar a filha na correria.

A moça ficou parada, com a frase na mão.

Aprendeu ali um segredo que levaria para toda a vida: há momentos em que a gente merece uma aleluia.

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Coluna escrita diretamente de Helsinque, onde vim fazer um trabalho de divulgação dos meus livros, depois de uma manhã de neve, que me fez lembrar de outra neve – não menos mágica que a de hoje.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.